"I hope the fences we mended
Fall down beneath their own weight"

John Darnielle

padaoesilva@gmail.com

quinta-feira, 30 de junho de 2016

O paradoxo da seleção

            Falta de eficácia e algumas exibições individuais pouco conseguidas. Têm sido estas as explicações para o percurso da seleção no Euro. Um conjunto de justificações conjunturais que servem para ocultar causas estruturais.
            Talvez valha a pena recordar que Portugal integra um grupo que, numa fase final de um Euro, nem por encomenda. Islândia, Áustria e Hungria são seleções sofríveis. Acima de tudo, não é possível anunciar que Portugal é candidato à vitória e justificar empates contra estas equipas com azar e falta de eficácia. O problema começou mesmo nas expectativas: nem a seleção nacional é tão má como tem parecido, nem é tão boa como se quis fazer crer.
            A meio caminho entre o que se tem visto e as expectativas criadas, está uma equipa com qualidade, mas que tem debilidades e não são de hoje. Com um jogador extraordinário e sem ajudantes à altura, a seleção portuguesa vive com desequilíbrios e parece jogar melhor contra equipas mais fortes.
            Ronaldo é a mais valia e, paradoxalmente, um problema para a seleção. Sendo um portento na finalização, está longe de ser um jogador de topo na percepção coletiva do futebol e na capacidade de envolver os colegas no seu jogo. Por isso mesmo, rende mais quando não é referência atacante e tem ao seu lado um “poste” que o liberte. Ronaldo joga sozinho e quando tem uma equipa que o ajuda, é fantástico. Quando não é assim, sobra um jogador egocêntrico e preso na sua ambição – o marcador caricato de livres é o paradigma disto mesmo.

            Hoje, como já aconteceu, Ronaldo pode ganhar o jogo sozinho. A questão é que dificilmente se vence um Euro com este modelo de jogo.

publicado no Record de 22 de Junho

A Europa vista do Euro

O futebol pode bem ser a continuação da política por outros meios, pelo que a história do Euro se confunde com a da Europa: em 1960, ano da primeira Taça das Nações Europeias, apenas quatro seleções participaram na fase final. Dos três primeiros classificados, nenhum país existe e da sua fragmentação nasceram dezenas de novas nações. A União Soviética venceu a Jugoslávia na final, enquanto a Checoslováquia derrotava a França no jogo para o 3º lugar. Três repúblicas socialistas e uma potência colonial – que, entretanto, também, perdeu o seu império.

Nas décadas seguintes, a integração europeia progrediu, o Bloco de Leste colapsou e a democracia chegou ao sul. O futebol europeu beneficiou da revolução cultural dos 60. Num torneio já com uma fase final alargada, a Laranja Mecânica liderada por Cruyff, ainda que nunca cumprindo as expetativas, mudava a face do futebol europeu, questionando as regras estabelecidas. Depois, perante a desagregação política a Leste e o alargamento da U.E. às jovens democracias, o multiculturalismo tomava conta das seleções, que juntavam filhos de emigrantes de todas as proveniências. A Europa respirava otimismo histórico e o futebol espelhava o ar dos tempos.


Hoje, o Euro é de novo retrato da Europa. Uma competição alargada para além do razoável (24 seleções!), num continente fragmentado, dividido por novas clivagens e movido a ressentimento. Regressaram em força os confrontos entre adeptos, as tensões nacionalistas e até a Alemanha – que no fim tenderá a vencer – se revela, em campo, uma potência hegemónica relutante.

publicado no Record de 13 de Junho

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Coming Home

quem é que disse que não havia justiça poética no desporto? a vitória de ontem dos Cavs (ou do LeBron, não sei bem) está aí para provar o contrário.
é bom reler a carta escrita há dois anos, quando LeBron deixou os Heat para regressar a Cleveland. o desporto, ao mesmo tempo, como metáfora e concretização do sonho americano.



Before anyone ever cared where I would play basketball, I was a kid from Northeast Ohio. It’s where I walked. It’s where I ran. It’s where I cried. It’s where I bled. It holds a special place in my heart. People there have seen me grow up. I sometimes feel like I’m their son. Their passion can be overwhelming. But it drives me. I want to give them hope when I can. I want to inspire them when I can. My relationship with Northeast Ohio is bigger than basketball. I didn’t realize that four years ago. I do now.
Remember when I was sitting up there at the Boys & Girls Club in 2010? I was thinking, This is really tough. I could feel it. I was leaving something I had spent a long time creating. If I had to do it all over again, I’d obviously do things differently, but I’d still have left. Miami, for me, has been almost like college for other kids. These past four years helped raise me into who I am. I became a better player and a better man. I learned from a franchise that had been where I wanted to go. I will always think of Miami as my second home. Without the experiences I had there, I wouldn’t be able to do what I’m doing today.
I went to Miami because of D-Wade and CB. We made sacrifices to keep UD. I loved becoming a big bro to Rio. I believed we could do something magical if we came together. And that’s exactly what we did! The hardest thing to leave is what I built with those guys. I’ve talked to some of them and will talk to others. Nothing will ever change what we accomplished. We are brothers for life.  I also want to thank Micky Arison and Pat Riley for giving me an amazing four years.
I’m doing this essay because I want an opportunity to explain myself uninterrupted. I don’t want anyone thinking: He and Erik Spoelstra didn’t get along. He and Riles didn’t get along. … The Heat couldn’t put the right team together. That’s absolutely not true.

I’m not having a press conference or a party. After this, it’s time to get to work.
When I left Cleveland, I was on a mission. I was seeking championships, and we won two. But Miami already knew that feeling. Our city hasn’t had that feeling in a long, long, long time. My goal is still to win as many titles as possible, no question. But what’s most important for me is bringing one trophy back to Northeast Ohio.
I always believed that I’d return to Cleveland and finish my career there. I just didn’t know when. After the season, free agency wasn’t even a thought. But I have two boys and my wife, Savannah, is pregnant with a girl. I started thinking about what it would be like to raise my family in my hometown. I looked at other teams, but I wasn’t going to leave Miami for anywhere except Cleveland. The more time passed, the more it felt right. This is what makes me happy.
To make the move I needed the support of my wife and my mom, who can be very tough. The letter from Dan Gilbert, the booing of the Cleveland fans, the jerseys being burned -- seeing all that was hard for them. My emotions were more mixed. It was easy to say, “OK, I don’t want to deal with these people ever again.” But then you think about the other side. What if I were a kid who looked up to an athlete, and that athlete made me want to do better in my own life, and then he left? How would I react? I’ve met with Dan, face-to-face, man-to-man. We’ve talked it out. Everybody makes mistakes. I’ve made mistakes as well. Who am I to hold a grudge?
I’m not promising a championship. I know how hard that is to deliver. We’re not ready right now. No way. Of course, I want to win next year, but I’m realistic. It will be a long process, much longer than it was in 2010. My patience will get tested. I know that. I’m going into a situation with a young team and a new coach. I will be the old head. But I get a thrill out of bringing a group together and helping them reach a place they didn’t know they could go. I see myself as a mentor now and I’m excited to lead some of these talented young guys. I think I can help Kyrie Irving become one of the best point guards in our league. I think I can help elevate Tristan Thompson and Dion Waiters. And I can’t wait to reunite with Anderson Varejao, one of my favorite teammates.
But this is not about the roster or the organization. I feel my calling here goes above basketball. I have a responsibility to lead, in more ways than one, and I take that very seriously. My presence can make a difference in Miami, but I think it can mean more where I’m from. I want kids in Northeast Ohio, like the hundreds of Akron third-graders I sponsor through my foundation, to realize that there’s no better place to grow up. Maybe some of them will come home after college and start a family or open a business. That would make me smile. Our community, which has struggled so much, needs all the talent it can get.
In Northeast Ohio, nothing is given. Everything is earned. You work for what you have.
I’m ready to accept the challenge. I’m coming home.

quarta-feira, 8 de junho de 2016

Um 8 para o 36


Se o Benfica quiser garantir o 36 na próxima época, a prioridade passa por não repetir erros da temporada passada. Parece paradoxal, tendo em conta que o Glorioso acabou por ser campeão, contra as expectativas iniciais. Mas, a frio, talvez valha a pena reconhecer que, de facto, o Benfica venceu, apesar de um planeamento atribulado.

É, hoje, claro que a digressão norte-americana, se colocou o Benfica na rota de muitos colossos do futebol mundial, foi uma má experiência e impediu a sedimentação de novos processos. O problema, aliás, não foi apenas do Benfica – as equipas que andaram embarcadas em viagens comerciais à volta do mundo deram-se mal no início da época.

O principal erro foi mesmo a formação do plantel. Depois de uma segunda metade de 14/15 em que era evidente a necessidade de encontrar um substituto de Enzo para a posição 8, o Benfica entreteve-se com um sem número de contratações, não cuidando de encontrar atempadamente um titular para o centro do terreno. Ora, com Jonas em campo, não há volta a dar: como o brasileiro não pode jogar sozinho na frente, o Benfica tem de jogar com um meio-campo de dois jogadores. Com Samaris e Fejsa, a posição 6 está assegurada, mas o futebol do Benfica depende de um 8 com características muito particulares.

Esta temporada, a emergência do extraordinário Renato acabou por resolver a lacuna no plantel e ofereceu-nos o título. Com a saída do Bulo, o Benfica voltou à estaca zero. Encontrar um 8 de classe, titular de caras, não pode deixar de ser feito, nem – como em anos anteriores – adiado para o encerramento do mercado.

publicado no Record de terça-feira

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Espinha Dorsal

            Na semana passada, escrevi que, perante propostas como as que têm sido aventadas, o Benfica não deveria tentar segurar jogadores a todo o custo. Seria um erro. O futebol português não tem condições para cobrir ofertas em redor dos 30 milhões e mesmo que estas fossem recusadas, haveria que compensar salarialmente os atletas, pervertendo a coerência que deve existir na folha salarial de um clube.
            A questão que se coloca hoje a um clube como o Benfica não é tanto segurar os seus ativos, mas saber geri-los de forma a poder continuar a formar equipas vitoriosas.     
        A diferença do Benfica de hoje face a um passado mitificado não é a entrada e saída de jogadores em catadupa, com pouco amor à camisola. É que, ao contrário do que acontecia, os jogadores do Benfica passaram a ter mercado, quando há uma década ninguém lhes pegava. Esta mudança tem, aliás, um efeito muito positivo: o Benfica passou a ser atrativo para jovens talentos, de outras paragens, que sabem que aqui se podem valorizar.          
            Agora, como sempre acontece, a chave para o sucesso está no equilíbrio. O Benfica precisa de encontrar jovens talentos (um substituto para Gaitán, da mesma forma que Gaitán substituiu o, então, insubstituível Di Maria), mas tem também de preservar a espinha dorsal da equipa, de modo a que quem chega encontre elementos de continuidade. Daí que a manutenção no eixo central de Júlio César, Jardel, Fejsa e Jonas deva ser prioridade. Com eles em campo e no balneário, o 36 tornar-se-á mais fácil, mesmo que saiam muitos jogadores e entrem outros tantos.



publicado no Record de terça-feira

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Uma razia


Com o brilharete na Champions, a conquista do campeonato, a imagem positiva de que goza hoje a formação do Benfica e com os clubes ingleses inundados de dinheiro, o mais provável é que se assista a uma razia no plantel encarnado. Se o mercado for racional, da equipa que terminou a época a titular, devem sair seis jogadores. Renato e Gaitán são dossiers encerrados e só se meia Europa andar distraída é que Ederson e Lindelof não irão pelo mesmo caminho. Já Jonas e Jardel, por oferecerem uma combinação muito importante de maturidade com qualidade, deviam ser jogadores a preservar.

Perante este cenário, não faltarão lamúrias e muitos se apressarão a pintar de tons trágicos a próxima temporada. Não vai ser fácil reconstruir, uma vez mais, uma equipa ganhadora, mas também não vejo razões para tremendismos. Há, no entanto, erros que não podem ser cometidos.

Um deles é cair na ilusão romântica de que, no futebol atual, é possível a um clube português competir com ofertas de clubes ingleses, espanhóis e, claro está, chineses. Não só não é, como seria um erro se o Benfica tentasse responder a propostas salariais irrecusáveis para os atletas e que se traduzem em grandes mais valias para o clube.

Um pouco de memória é suficiente para percebermos o equívoco que teria sido acompanhar salários exorbitantes oferecidos a jogadores que pareciam insubstituíveis (Maxi), além de que um clube português não tem condições financeiras para recusar ofertas de 30 milhões de euros, qualquer que seja o jogador (Enzo). Quem diz o contrário, está rendido à demagogia e deixa-se iludir. O que, é sabido, é meio caminho para acumular derrotas.

publicado no Record de terça-feira

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Completamente Diferente



Sabemos bem onde estávamos no verão passado, quando o planeamento da temporada parecia um equívoco e a equipa teimava em não ter uma ideia de jogo. Mas, também não me esqueço de que, logo no primeiro jogo em casa, Rui Vitória lembrava que sabia o que era ser adepto, pois vinha ao Estádio da Luz desde os 5 anos.

Bem sei que o tempo não está de feição para visões românticas do futebol, até porque se o Benfica ganha hoje (também nas modalidades) é por ter uma estrutura profissional, que substituiu o amadorismo que imperou durante anos. Mas, apesar disso, talvez seja bom recordar a diferença que faz vencer um campeonato com um grande treinador – benfiquista como nós e que não se coloca no centro do mundo –, quando comparado com vencer campeonatos com um grande treinador, que só perde com a bazófia que não consegue refrear.

Tenho memória de muitos campeonatos conquistados, mas este teve um sabor especial: porque a temporada se iniciou sob o espectro do desinvestimento; por termos ressuscitado depois de dados como mortos e enterrados; pela forma como os adeptos estiveram com a equipa e só se libertaram verdadeiramente nos festejos incontidos de domingo; acima de tudo, pelo modo como Rui Vitória soube inventar jogadores quando tudo parecia perdido, manter o grupo unido e motivado face a uma ofensiva que raiou o delirante e porque é completamente diferente ter um treinador que é um homem decente. Um critério que o deixa isolado, com todo o mérito, em primeiro. A grande distância, por exemplo, de um vendedor de pipocas.

publicado no Record de terça-feira

sexta-feira, 13 de maio de 2016

Categórico

"Se o Benfica ganhar o próximo jogo, começo a acreditar". O tweet de João Vale, no final da partida contra o Marítimo, resume com precisão o estado de espírito dos benfiquistas e é, também, a chave do sucesso. A memória do futebol desconchavado do início da época e a sucessão de maus resultados que assolaram a equipa durante muito tempo afastaram qualquer sonho de vitória. Mas, semana a semana, o Benfica foi ultrapassando todas as adversidades e deixou para trás adversário após adversário. Hoje, a conquista do tri é uma possibilidade real, à distância de uma vitória.

É a memória viva dos insucessos de início da temporada e a bazófia com que os nossos adversários nos têm brindado ao longo do campeonato que mantêm o Benfica focado apenas no seu percurso e com uma humildade que ajuda a enfrentar as dificuldades. E não têm sido poucas.

O Benfica superou todos os testes: estabilizou as opções técnicas quando a pressão para mudar era muita; teve a frieza de não responder à incontinência verbal e facebookiana dos adversários; perante ondas sucessivas de lesões, encontrou nos ‘Manéis’ da equipa B soluções à altura; recuperou de desvantagens em vários jogos; reequilibrou-se fisicamente após o desgaste da Champions; e, domingo, contra o Marítimo, realizou das melhores exibições dos últimos tempos, respondendo à pressão psicológica que envolvia a partida e, acima de tudo, mostrando confiança e um espírito de grupo notável, que permitiram (con)vencer, mesmo jogando com 10.

Custa a acreditar: contra as expectativas, o Benfica está, de forma categórica, a três pontos de ser campeão.

publicado no Record de terça-feira


quinta-feira, 5 de maio de 2016

Confiança

Na semana passada escrevi que ao Benfica, para vencer o campeonato, restava vencer as três partidas em falta. A afirmação provou ser verdadeira e, hoje, sobram duas finais por disputar. Não vale a pena contar com ajudas de terceiros. O Sporting não vai perder pontos e, caso não vença Marítimo e Nacional, fica claro que o Benfica não merecia ser campeão. Afinal, em competições longas, não há vencedores morais, pelo que quem terminar em primeiro lugar será o justo campeão nacional.E quais são, neste momento, os problemas do Benfica?

Tem sido sugerido que a equipa enfrenta algum cansaço físico, fruto de uma temporada longa e disputada em muitas frentes. Determinados jogadores caíram muito nos últimos jogos, já não revelam o vigor físico de há um mês e, ao contrário do Sporting, não entrou uma mão cheia de jogadores no mercado de inverno para a equipa titular.

Discordo. O problema do Benfica é de outra natureza. Com o aproximar do fim da época, a possibilidade de vitória tornou-se uma espécie de abismo psicológico. Nos últimos jogos a equipa sofreu não por dificuldade física, mas por ainda não se ter convencido que vai ser campeã. Faz sentido. O Benfica planeou mal a temporada, deu um avanço inacreditável aos adversários, renasceu e talvez hesite em acreditar que, agora, depende apenas de si próprio para levantar a taça. Convenhamos que este muro psicológico é bem mais fácil de derrubar do que seria um eventual cansaço físico. Aliás, é para isso que servem os adeptos: para dar um suplemento de confiança e empurrar a equipa para a vitória. Na Madeira no domingo e no fim-de-semana seguinte na Luz.

publicado no Record de terça-feira

sexta-feira, 29 de abril de 2016

Há vida para além do Benfica

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Faltam Três

A vitória contra o Rio Ave – em teoria o adversário mais difícil nestas últimas jornadas – não alterou tanto como se pode pensar a difícil caminhada do Benfica rumo ao título. Engana-se, por isso, quem pensava que este era o jogo decisivo. A deslocação a Vila do Conde era determinante apenas na medida em que em lugar de faltarem quatro vitórias, o Benfica passou a estar a três vitórias do 35.

Percebe-se a euforia dos adeptos e as celebrações dos jogadores, mas convém ter presente as tristes lições do passado. Há três anos, após uma vitória difícil na Madeira, frente ao Marítimo, o campeonato parecia reservado e tudo foi perdido num jogo em teoria fácil com o Estoril na Luz. Este ano o campeonato será disputado até à última jornada e não vale a pena alimentar ilusões. O Benfica dependerá apenas das suas vitórias para ser campeão, da mesma forma que o Sporting vencerá todos os confrontos que tem por disputar. Quando se aproximam as partidas decisivas, faz toda a diferença estar ainda em jogo alguma coisa importante. O Sporting tem tudo a perder no Dragão e o Porto nada a ganhar (a não ser uma vaga noção de honra). No sábado, Sporting e Porto estarão a disputar campeonatos diferentes. Essa pressão adicional favorece o Sporting. Pelo que o Benfica não deve ficar à espera de ajudas de terceiros.


A partir de agora, tão difícil como a preparação física e tática para os jogos que se seguem, é evitar alguma descompressão e contrariar a ideia de que o campeonato está garantido. O Benfica depende de si: para já, tem de ganhar ao Guimarães e não deve contar com um auxílio improvável do Porto.

publicado no Record

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Ser Benfiquista


Encostado ao muro, de perna fletida e sem bigode, o meu tio-avô, sobre o qual escrevi aqui. Este texto surpreendente (scroll down até 'construtor de catedrais') conta a história quase toda.

É só sorte?



A sorte é um fator claramente sobrevalorizado no caminho para o sucesso e, contas feitas, no fim, nem sequer protege os audazes. O Benfica, ontem, teve uma vitória sofrida frente ao Vitória e, se pensarmos na defesa final de Ederson, podemos mesmo dizer que foi bafejado pela sorte. Mas a verdade é que a sorte procura-se e, esta temporada, o Benfica não tem feito outra coisa.

É mais um daqueles casos em que os números não enganam e um bom indicador para avaliar o papel da sorte no futebol são os jogos que são decididos pela margem mínima. Nestes casos, sim, uma bola da equipa adversária que não entrou mas poderia ter entrado é capaz de ter feito a diferença.

Em trinta jornadas, o Benfica venceu sete jogos pela margem mínima; já o Sporting – o clube que, de acordo com Jorge Jesus, "tem ganho de forma convincente, enquanto os adversários têm ganho com sorte" – leva onze vitórias por um golo de diferença. Se acrescentarmos que muitos destes resultados foram alcançados no último minuto ou já nos descontos, estamos falados quanto a sorte.

Da mesma forma que é justo reconhecer que, aquando do início da temporada, o Benfica perdeu vários jogos e não foi por azar, também se deve reconhecer que a notável recuperação iniciada com a vitória fora em Braga (lá está, por 2-0) é fruto do trabalho que permitiu formar uma equipa coesa e com sentido coletivo. E, já agora, uma equipa que é espelho de um treinador que demonstra elevação e respeito pelo trabalho dos adversários.

publicado no Record na terça-feira

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Cinco Jogos


O rol de resultados do Porto nas várias modalidades, nas duas últimas semanas, não deve ter paralelos nas últimas décadas. Três derrotas consecutivas com o Benfica no andebol (modalidade em que o Glorioso não conquistava um título há quatro anos); eliminação das competições europeias pela Oliveirense no hóquei; derrota com o Galitos e depois com a Ovarense no basquetebol; culminando com a dupla jornada negra no futebol, frente ao Tondela e Paços de Ferreira.

Uma sequência de resultados assim não pode ser fortuita ou fruto do azar – uma bola que não entrou e podia ter entrado –, nem sequer atribuída a erros de arbitragem. Quando os exemplos são demasiados e contrastam com a senda vitoriosa do passado, as explicações têm de ser outras e só podem ter causas estruturais. De igual forma que a dinâmica de vitória do Benfica, que vai acumulando resultados positivos e conquista títulos em todas as modalidades, parafraseando Luís Filipe Vieira depois do jogo de Munique, "não pode ter nascido por acaso".

Não se pense, contudo, que verto lágrimas de crocodilo pelo Porto de Pinto da Costa. Penso mesmo que o que se está a passar é um caso de justiça poética (ou até dourada!). A questão é outra.

Há, neste momento, uma grande expectativa entre os benfiquistas: o Sporting perderá pontos no dragão e o título ficará à nossa mercê. Temo que não seja assim. O mais provável, hoje, é que o Porto perca tudo o que tem a perder. Com consequências. Para alcançar o 35, o Benfica depende apenas de si e tem cinco jogos para vencer.

publicado no Record

quinta-feira, 7 de abril de 2016

o outro lado


quarta-feira, 6 de abril de 2016

Regressar a casa




Jonas assiste com as costas e Pizzi marca. Peço desculpa, mas não me recordo de muitas assistências com as costas que tenham resultado em golo. Ainda assim, o momento do jogo não foi esse, mas o que se seguiu. Bola no fundo das redes, Jonas e Renato correm desenfreadamente a celebrar em direção à linha de fundo, para só depois se juntarem no lado oposto, em nova corrida, aos restantes colegas. A equipa festeja efusivamente, num movimento infantil, descoordenado, desprovido de rumo, como é próprio da felicidade absoluta. Sabem que mais? É aí que se encontra o segredo da senda vitoriosa do Benfica.

A inteligência subtil de Jonas é determinante, o pé-quente de Mitroglou ajuda, a titularidade de Renato deu metros verticais no centro do terreno e, num aspeto menos notado, Fejsa oferece o equilíbrio tático que faltava. Mas a génese do Benfica vitorioso tem as suas raízes noutro factor. Vislumbra-se em campo uma alegria selvagem (lá está, o efeito Renato) e um espírito de grupo como não se via no passado. O Benfica celebra os golos com uma satisfação incontida, enquanto a equipa se celebra a si própria.


No lançamento do jogo contra o Braga, Rui Vitória, comentando as longas digressões aéreas a que uma parte importante do plantel se tinha dedicado, dizia que lhe tinha agradado "ver a cara de bem estar dos jogadores ao regressar, como um regresso a casa. É sinal de que gostam de estar aqui". É nesta casa comum, onde jogadores e adeptos se reencontram, que o Benfica de hoje constrói uma maré vermelha que empurra a equipa para as vitórias.

publicado no Record de terça-feira

segunda-feira, 4 de abril de 2016

My own private Panama


quarta-feira, 30 de março de 2016

Aquele Abraço



O que há num abraço?, podemos questionar-nos, após o movimento destemido do jovem que galgou a segurança para ir ter com Renato Sanches ter ficado como a marca do Portugal-Bulgária. Num jogo que tenderia a ficar na memória por um falhanço improvável de Ronaldo, um abraço tão caloroso como infantil tornou-se protagonista central. Faz sentido: aquele abraço teve um simbolismo que supera o ato em si.

Como tem sido dito, o Renato é um enorme talento, mas um projeto de craque, com muito para aprender. Podemos nele vislumbrar sinais de um futuro promissor. Mas não é isso que o diferencia de outros futebolistas. Pelo contrário, Renato Sanches entusiasma por ser um jogador do passado. Uma memória viva do futebol romantizado, jogado em peladinhas desorganizadas no meio da rua, entre carros estacionados e com bolas perdidas para a estrada. A euforia em torno do Renato não é direcionada ao futuro, nem ao que oferece hoje ao Benfica. É um festejo do futebol de ontem.

Depois, não vale a pena fingir que não é assim: o compromisso primordial dos adeptos é com os clubes. A Seleção é o que nos oferecem quando o futebol fica suspenso. A justa paixão dos benfiquistas pelo Renato prolonga-se para lá do Estádio da Luz. A seleção é mais uma oportunidade para celebrá-la.

Poucos têm a sorte de ter 13 anos e vestir uma camisola do Benfica com o mesmo número 24 do Renato. Mas muitos invejaram o Diogo Caleiro quando irrompeu pelo campo adentro para de forma destemperada abraçar o Renato. É que o que chamamos abraço, dado a outro que não ao Renato, não seria tão encantador.

publicado no Record de ontem

quinta-feira, 24 de março de 2016

Venceu o Manel

Todos se recordam quando Jorge Jesus, face à situação de necessidade após a saída de Matic, disse que jogaria o Manel. A afirmação fazia todo o sentido. Uma equipa vencedora depende do talento individual e da existência de um onze base, mas também da capacidade de, na adversidade, a organização coletiva ser capaz de superar as ausências.

Jorge Jesus tinha razão: numa equipa com dinâmica vencedora e com processos enraizados, pode jogar o Manel.

No Bessa, o Benfica enfrentava um teste muito exigente. Com um onze titular com demasiadas baixas, a equipa jogou com vários 'Manéis'. Jogadores que hoje são titulares e dão boa conta do recado eram, no início da temporada, terceiras e quartas escolhas. Aliás, se, em agosto, alguém dissesse que o Benfica estaria a liderar o campeonato por esta altura, com Ederson, Renato Sanches, Lindelöf, André Almeida e Nélson Semedo como titulares e Samaris adaptado a central, ninguém acreditaria.

A vitória sofrida contra o Boavista tem, por isso, vários significados. Por um lado, serve para demonstrar a estrelinha de campeão - sempre necessária nas fases avançadas das temporadas, mas que reflete também determinação e vontade de vencer; por outro, prova que o Benfica, hoje, não depende apenas da qualidade individual de um par de jogadores. Sem Gaitán, é verdade que, uma vez mais, foi Jonas a decidir, mas o que o jogo do Bessa revela é que estamos perante um coletivo personalizado, que vale como um todo. Ora é desta massa que se fazem os campeões.

publicado no Record de terça-feira

quarta-feira, 16 de março de 2016

Perder Cansa



Um amigo meu, que foi desportista de alta competição numa modalidade individual, repete sempre que o que o levou a abandonar o circuito mundial foi já não aguentar perder. Isso mesmo, um cansaço mental que derrotava qualquer esperança. A questão não era física ou técnica. Era de outra natureza.

Lembro-me sempre desta lição quando ouço uma ideia peregrina que tem feito o seu caminho nos últimos tempos: um clube pode ter vantagens caso seja eliminado prematuramente das competições europeias. Perder é benéfico porque, assim como assim, em algum momento é-se eliminado, logo quanto mais cedo melhor. Os defensores desta tese foram ao ponto de sugerir que uma vitória do Benfica contra o Zenit seria vantajosa para Sporting e Porto, pois os encarnados ficariam desgastados fisicamente e sofreriam nos jogos domésticos.

Ontem, na Luz, contra o Tondela, ficou de novo demonstrado o absurdo da teoria. Ganhar é sempre um suplemento de alma que compensa qualquer cansaço. E em fases avançadas de uma competição europeia a asserção é ainda mais verdadeira. Perder é que cansa.

Estar em várias competições ao mesmo tempo tem, contudo, um efeito: complica a vida aos treinadores. Não tanto pelo desgaste provocado nos atletas - para quem as vitórias são um fator de motivação -, mas porque para um técnico é bem mais exigente ter microciclos de treino, em lugar do conforto dos ciclos semanais. Mas essa é também uma diferença entre um clube grande e um pequeno. Nos grandes joga-se sempre para ganhar e as opções competitivas não são condicionadas pelas idiossincrasias dos treinadores.

publicado no Record de terça-feira