Desde George Orwell que sabemos que quem controla o passado, controla o futuro e quem controla o presente, controla o passado. É assim que deve ser entendida a tentativa de Bruno de Carvalho de reescrever a história dos títulos de campeão nacional. Não fora a iniciativa tão tosca e desconforme com os factos, Bruno de Carvalho arriscava-se mesmo a ser o presidente do Sporting a conquistar mais títulos num só mandato – para já, quatro campeonatos em três anos. Seria obra, não fora ser na secretaria.
Regressemos ao estimulante exercício de revisionismo. O argumento do presidente do Sporting parte do pressuposto de que o Campeonato de Portugal disputado até 1938, por eliminatórias, corresponde ao Campeonato Nacional. Podia fazer sentido, não fora a hipótese não ser acompanhada por ninguém, nem sequer pelo autor do ‘Almanaque do Leão’, Rui Miguel Tovar. Aliás, a própria Federação, aquando da alteração das competições, logo em 1938, teve o cuidado de consagrar a doutrina, para memória futura, "Por virtude da reforma a que se procedeu no Estatuto e Regulamentos da Federação, os Campeonatos das Ligas e de Portugal passaram a designar-se, respetivamente, Campeonatos Nacionais e Taça de Portugal".
Talvez a explicação para este ímpeto de conquistas esteja na história recente: desde que Bruno de Carvalho foi eleito, há uma regularidade estatística – o Benfica sagrou-se sempre campeão. Não sei se há correlação entre os dois eventos, em todo o caso, tendo em conta que o presidente do Sporting se alimenta a antibenfiquismo, talvez o assunto o preocupe.
publicado no Record de 14 de novembro
quinta-feira, 17 de novembro de 2016
Bafejados pela sorte?
No domingo, nem o Porto foi tão superior como se quis fazer crer, nem o Benfica tão afortunado como sugere um empate alcançado nos descontos. Olhemos para os números: vantagem do Porto nos remates (17/12) e nos remates enquadrados (8/2), mas, em todos os outros indicadores, houve grande proximidade entre as equipas. Equilíbrio total na posse de bola, ligeira vantagem nas oportunidades de golo criadas para o Porto (13/11) e na eficácia do passe (81%/77%). Apesar de tudo, o Benfica venceu mais duelos (54/51) e teve mais cantos a favor (9/6).
Claro está que os números não dizem tudo e para quem viu o jogo não sobram dúvidas: Nuno Espírito Santo preparou melhor a estratégia com que abordou a partida e remeteu o Benfica para uma toada defensiva, que Rui Vitória devia ter contrariado bem antes de sofrer o golo. Mais, ficou a sensação de que, em partidas a doer e com muitas baixas, o Benfica deixa de poder depender tanto do talento individual e pressente-se alguma falta de critério coletivo. Continua aí a principal debilidade estrutural deste Benfica.
Mas enquanto Rui Vitória foi superior na forma como mexeu na equipa, Espírito Santo deu demasiados sinais defensivos nas substituições, oferecendo ao Benfica um controlo do meio-campo que tinha perdido completamente na primeira parte.
No fim, o empate e a confirmação de que a sorte desempenha um papel importante no futebol: não fora a rosca de Herrera e a falha de marcação do Porto num canto aos 92 minutos, estaríamos a falar de uma partida diferente. Contudo, por paradoxal que possa parecer, nem sequer a sorte é fruto do acaso.
publicado no Record de 7 de Novembro
quarta-feira, 2 de novembro de 2016
Contra o entusiasmo
Há um ano, por esta altura, o Benfica era
uma equipa destroçada. Sem fio de jogo, a viver uma transição traumática de
treinadores e a acumular maus resultados. Antes da deslocação a Braga, a
questão que se colocava era se fazia sentido começar a preparar a nova
temporada, mudando de treinador e lançando novos jogadores ou, pelo contrário,
teimar numa aposta que parecia falhada. Entretanto, o Sporting liderava o
campeonato com uma vantagem que era sensivelmente a mesma que o Benfica tem agora.
Sabemos bem como terminou o campeonato.
E sabemos também que pequenos fatores
fizeram uma grande diferença: a entrada de Renato na equipa, que ligou os
setores e conferiu dinâmica ao futebol do Benfica, e uma dupla atacante (Jonas
e Mitroglou) que começou a marcar golos em catadupa. Claro está que, não fora o
excesso de confiança demonstrado pelo Sporting, a vantagem amealhada pelos de
Alvalade não teria sido delapidada.
É essa a principal lição que o Benfica
agora deve recordar. Não há lideranças confortáveis e nem os adversários são
tão frágeis como sugerem os resultados deste fim-de-semana, nem
futebolisticamente o Benfica é tão superior como indicia a tabela
classificativa. O Porto, por estar liberto da tensão entre Benfica e Sporting,
tem a vantagem de correr por fora e tem este ano mais soluções em posições
chave; já o Sporting tem um excelente treinador, com um plantel desenhado à sua
medida e que é bem mais completo do que o do ano passado. É por isso que,
agora, contrariar o entusiasmo natural que se sente na família benfiquista é
tão importante como ultrapassar as fragilidades futebolísticas que ainda
existem.
quarta-feira, 26 de outubro de 2016
Saiu quem?
A certa altura do play-off deste domingo, com a sagacidade
que o caracteriza, Augusto Inácio questionava repetidamente, “saiu quem do
Benfica?”. A pergunta, está visto, visava demonstrar que o Sporting tinha sido
particularmente afetado no defeso, com a perda de João Mário e de Slimani. É um
facto. Mas talvez valha a pena ajudar o ex-diretor de relações internacionais
do Sporting.
Dos cinco jogadores
mais importantes da equipa que venceu o tricampeonato, o Benfica perdeu Gaitán
e Renato Sanches e Jonas e Jardel ainda não jogaram, envolvidos que estão nessa
praga clínica de proporções bíblicas que afeta o Seixal. Se juntarmos as lesões
à vez de Ederson e Júlio César e os escassos 70 minutos de Rafa (o reforço mais
sonante), de facto, é caso para dizer que, tirando estes, ninguém saiu do
Benfica. No fim, o jogador mais propenso a lesões, Fejsa, é o único
sobrevivente do cinco que liderou o Benfica rumo ao 35.
São, na verdade,
muitas “saídas”. E se somarmos a saída do cérebro há um ano e o facto de termos
uma equipa à deriva, que, é-nos dito, nem sequer treinador tem, a dinâmica de
vitória do Benfica é miraculosa.
Ou talvez não. Apesar
de tantas saídas, há explicações para o Benfica continuar a vencer. É que
“saem” jogadores, mas há coisas que se mantêm: o compromisso competitivo; a
intensidade com que se encaram os jogos; a concentração exclusivamente no
próprio grupo; a humildade com que se enfrenta os adversários. Tudo qualidades
mais difíceis de garantir do que uma mão-cheia de reforços comprados com pouco
critério.
quinta-feira, 13 de outubro de 2016
Um Nobel dylanesco
Há uma estranheza evidente na
atribuição do Nobel da literatura a Bob Dylan, mas há também algo de natural na
escolha da Academia.
Dylan é um autor e acima de
tudo, na definição exata de Leonard Cohen, “o Picasso da canção”. Alguém que,
primeiro, alinhou com o cânone para o levar mais longe (o legado de Woody
Guthrie), para logo depois reinventar o lugar da canção de protesto, ao ponto de,
por vezes, já nem ser canção e ter deixado definitivamente de ser de protesto. Sem
Dylan não haveria Springsteen, não escutaríamos da mesma forma Townes Van Zandt
e a reinvenção alt-country e folk de Bonnie Prince Billy aos Wilco seria
inviável. Da mesma forma que a canção como veículo primordial para a palavra,
nos Mountain Goats de John Darnielle, seria uma impossibilidade. Dylan não
criou tudo, mas abriu as portas para quase tudo o que se seguiu e para o que o tem
acompanhado.
Dylan é um inovador radical e
a sua música provoca um certo desconforto, o medo que pressentimos de um “som
estrangeiro”. Mas ser um cantor disruptivo e inovador, por si só, não faz dele
um escritor. Contudo, se acreditarmos que a força da literatura reside na
capacidade de criar uma voz singular, dissonante e desafiante, Dylan tem na sua
lírica uma obra literária com poucos paralelos.
Se nos ficarmos pelos
cantores, é certo que Cohen – companheiro de percurso mais próximo do que se crê
– tem uma obra mais vasta e mais próxima da literatura como a entendemos. Ao
contrário do canadiano, o “bardo do Minnesota” nunca foi romancista popular e a
sua poesia não é anterior, nem existe para além das canções. Se bem que
“Chronicles, vol. 1” seja, mais do que autobiografia, uma reflexão muito
interessante sobre o seu percurso, em Dylan a palavra é inseparável da música e
uma está amarrada à outra. Contudo, Dylan tem, a seu favor, a criação de um
universo e, com ele, de um adjetivo, “dylanesco”.
O traço artístico mais
sublinhado em Dylan é a sua natureza camaleónica. Mudou muito, reinventou-se e,
enquanto se reinventava, mudou a música, provocando estranheza e desconfiança
no seu próprio público: o Judas que pegou na guitarra elétrica para
revolucionar a folk, abandonar a canção de protesto e desfazer qualquer ilusão
de que era o porta-voz de uma geração; o filho dileto de Nashville que, entre
vénias a Cash, devolveu legitimidade cultural à country; ou o crooner sentimental que destilou o “Great
American Songbook” a níveis de limpidez de surpreendente grandiloquência ou até
o cantor que, numa paradoxal viragem do destino, se enredou em sermões
evangélicos. Scorsese fixou esse Dylan múltiplo, que ninguém conhece na sua
plenitude, amarrado a uma errância criativa, no notável “No Direction Home”.
Mas o Dylan que vence o Nobel
pode bem ser outro. O Dylan que tem uma lírica dylanesca. Uma poesia que não
resulta de um exercício racional, mas, pelo contrário, de um impulso criativo
de sentido ambíguo e que é inseparável da música. Uma poesia que pode ser lida
e interpretada de todos os ângulos, sem que nenhum se sobreponha. Uma voz
rebelde e desconcertante que não está amarrada nem ao seu eu singular nem,
muito menos, ao contexto circunstancial da sua época. Uma voz intensa que tem
uma poética indeterminada, a um tempo poesia de intervenção política e espelho
do seu tempo social, a outro, lírica amorosa, a resvalar para o
sentimentalismo. Bob Dylan é todas as vozes, mas não foi apenas todas as vozes
ao longo da sua carreira ou quando escutamos os seus discos.
A sua grandeza enquanto
escritor está na forma como, de forma concisa, consegue captar, num mesmo poema
e numa curta canção, visões variadas, contraditórias e um eu múltiplo, sem
nunca deslindar exatamente o sentido último da mensagem. Até porque, muito
provavelmente, aliás, o sentido último se perdeu, nunca existiu enquanto
construção racional ou a responsabilidade de o traduzir é de quem escuta as
canções e ouve as palavras. Se a literatura for apenas uma tentativa falhada de
busca da verdade, é bem provável que se encontre mais verdade e universalidade
na ambiguidade dylanesca do que em muitos outros autores, bem mais canónicos e
percepcionados como escritores.
publicado no Expresso diário de 13 de outubro
Totti e Horta: a mesma luta
É escusado lutar contra moinhos de vento. De pouco serve resistir ao mundo
do futebol feito indústria, aos jogadores que naturalmente se movem por
contratos mais generosos; aos clubes transformados em empresas, suspensas em
complexas engenharias financeiras; e aos dirigentes que não padecem de
angústias clubísticas, desde que os resultados operacionais sejam positivos.
Apesar de tudo, há formas organizadas de resistência ao futebol apenas
como negócio racional. Infelizmente, o essencial da oposição está nos adeptos e
não nos dirigentes ou nos jogadores. Há, contudo, exceções.
Francesco Totti. 40 anos, um só
clube na carreira. 764 jogos com a camisola giallorossa e um amor incondicional a uma memória do futebol que se foi perdendo. Totti
é prova material de que, para sobreviverem, os clubes precisam de exemplos de
fidelidade absoluta a uma ideia. De jogadores carismáticos, capazes de
preservar a popularidade de um desporto que se transformou numa indústria.
Jogadores para quem acima do clube do coração não há mais nada.
A
frase poderá ecoar na cabeça de alguns leitores. Foram as palavras de André
Horta na entrevista ao Record. O Horta que vive o Benfica como nós: celebra as
vitórias das modalidades e sofre com as derrotas do Glorioso, em qualquer
campo. Sim, o Horta pode ser o nosso Totti. Por uma vez, um jogador que não nos
abandone, que contrarie a mercadorização do futebol, e que, no balneário, seja
a voz do adepto e revele aos profissionais a “chama imensa”. Para já, não se
esqueçam - tem apenas 19 anos, mesmo que, a espaços, jogue como o adulto que
ainda não é.
publicado no Record de 11 de outubro
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