"I hope the fences we mended
Fall down beneath their own weight"

John Darnielle

padaoesilva@gmail.com

quarta-feira, 26 de abril de 2017

A verdadeira cartilha

Aparentemente, tem provocado grande ruído o facto de o Benfica enviar informação circunstanciada a alguns comentadores, pasme-se, afetos ao clube. Ainda não consegui perceber qual é exatamente o problema com este facto.
A semana passada, quando confrontado com a existência de tal informação, quer no Record, onde escrevo vai para quatro anos, quer na Sport TV+, onde comento desde o início do canal, fui claro na resposta, que recupero: "Cartilha só conheço a Maternal do João de Deus e o facto de um clube enviar informação sistemática é sinal de organização e de profissionalismo". Acrescentei que escrevo aquilo que penso e digo o que me apetece e que, para mim, é muito mais importante para formar a minha opinião as conversas quotidianas que tenho com outros grandes benfiquistas, os meus amigos Bernardo Azevedo, João Tomaz e Manuel Castro.

Este ponto é fundamental porque ajuda a perceber a verdadeira cartilha que rege os benfiquistas. Uma cartilha que firma um clube que não só existe para além de qualquer direção, por natureza transitória no tempo e limitada no seu poder, como recusa qualquer tipo de culto da personalidade do Presidente, quem quer que ele seja. O Benfica de que me habituei a gostar, e que sinto como meu, é mesmo uma agremiação de inclinação popular, pluralista e com adeptos hipercríticos e de pendor pessimista face à performance desportiva. Quando no nosso estádio os cânticos forem a Presidentes ou nas bandeiras se vir a face de dirigentes, é a identidade do Benfica, clube de espírito democrático e nascido nos meios populares de Lisboa, que estará a ser afrontada. Isto custa a perceber a todos aqueles que veem os outros à sua imagem e que, por isso, não hesitam em utilizar epítetos como 'avençados'. Tudo o que devo ao Benfica, e não é pouco, é do domínio imaterial: angústias diárias e emoção incontida nas vitórias.
Quem quiser fazer o exercício, que julgo penoso, de recuperar todos os meus textos no Record, concluirá que está perante um olhar não isento sobre o futebol e o Benfica em especial (afinal sou o sócio 8001 do Glorioso), mas também perante uma visão livre. Bem sei que para o lúmpen que pulula em redor do mundo do futebol seja difícil perceber que é possível ter uma filiação clubística inegociável, vibrar com as vitórias da nossa equipa, mas manter espírito crítico sobre a forma como a equipa joga ou até sobre as opções estratégicas que o clube toma. Não há opinião neutra e muito menos comentário higienizado. Os que me leem e ouvem sabem que sou – e, posso garantir, serei sempre –, com orgulho desmedido, benfiquista.

publicado no Record de 12 de Abril

O campeonato começou


As últimas imagens são as que perduram. Para quem viu o jogo em casa, o que fica é o Porto a queimar tempo para segurar o empate e a festejar no final da partida. No estádio, na retina ficou o capitão Luisão, enquanto as bancadas esvaziavam, de braços erguidos, em sinal de vitória, e a apontar para o escudo de campeão.
Trata-se de um belo retrato do que se passou no clássico e um sinal para o que aí vem. Depois do Porto avassalador – que vinha sendo anunciado aos sete ventos – não ter estado presente na Luz, do Benfica ter dominado a partida e ter estado sempre mais próximo da vitória, o Porto celebrava. É paradoxal que assim seja: afinal, o que fica das duas últimas jornadas do campeonato é que, por duas vezes, o Porto teve oportunidade de assumir a liderança e por duas vezes claudicou. A sete jornadas do fim, o Benfica lidera e o Porto aposta tudo num falhanço do Glorioso.
O campeonato começou agora e os cenários são incertos. Apesar de tudo, temos no histórico recente uma forma de perspetivar o futuro. E aí o Benfica leva vantagem. Não apenas, em absoluto contraste com o Porto, tem vários jogadores que já foram campeões com a camisola encarnada, como a equipa tem uma experiência de sucesso a lidar com a pressão. Na temporada passada, o Benfica liderou com dois pontos de vantagem durante dez jornadas. Deu a volta ao marcador em vários jogos, jogou em inferioridade numérica noutros, marcou nos últimos minutos e, semana a semana, foi construindo o caminho para o tri.

Conhecem aquela velha asserção de que a História se repete? Não é por acaso que acontece.

publicado no Record de 4 de Abril

Penáltis. Que Penáltis?


Pelo que se ouve dizer, se têm sido marcados os 485 penáltis que reclama só nesta temporada, por esta altura, o Porto liderava o campeonato nacional e seria favorito a vencer a Champions. Mas como penalties por marcar há para todos os gostos e todas as repetições televisivas, talvez valha pena fazer outro exercício: olhar para os penalties efetivamente marcados.
Os números, de facto, impressionam.
Nos últimos quatro anos, o Sporting teve 36 penáltis a favor; o Porto 32; e o Benfica 26. Será que este indicador nos diz alguma coisa? Se pensarmos que o Benfica foi a equipa que mais venceu e também a mais atacante nos últimos anos (288 golos marcados contra 256 do Porto e 249 do Sporting), é estranho que esta dinâmica atacante resulte num número inferior de grandes penalidades.
Tão relevante como o número de penalties é, como é sabido, o momento em que são assinalados. E aqui, de novo, uma série longa causa estranheza: dos 36 penáltis de que o Sporting beneficiou, 14 foram assinalados com o jogo empatado; no caso do Porto, o rácio é ainda mais favorável, 17 em 32 (isto é, mais de metade); já o Benfica, em 26 penalidades, apenas seis foram marcadas com o marcador empatado.
Projetemos agora o exercício à atual temporada. Enquanto o Porto teve seis penáltis a favor, cinco deles foram assinalados com o resultado empatado; já Benfica beneficiou de quatro penáltis, mas apenas um com o jogo empatado.
É estatisticamente curioso que a equipa que mais atacou nos últimos anos seja aquela que tem menos penáltis e ainda mais curioso que estes sejam menos decisivos para a marcha do marcador.
Querem mesmo continuar a falar de penáltis?


publicado no Record de 28 de Março

O hábito de vencer


No Sábado à noite, parecia claro: o Benfica tinha perdido o campeonato. Bastava ver o semblante carregado dos jogadores e a ansiedade no banco de suplentes. Um empate – sim, foi um empate – fora contra o Paços Ferreira aparentava ser o fim do percurso. Domingo ao final da tarde, parecia claro: o Porto tinha perdido o campeonato. Bastava seguir as declarações do treinador, após o apito final de um empate que tinha roubado uma pré-anunciada liderança da prova.
O futebol é a experiência ciclotímica por definição, os humores variam ao sabor do momento, quase sempre de forma inesperada. Mas, para além deste carrossel emocional, resta uma certeza, o campeonato está em aberto e a resistência psicológica desempenhará um papel determinante na atribuição do título.
Será suficiente? Naturalmente que não.
Os mind games são importantes e, quer do lado do Benfica, quer do Porto, não foi positivo o ambiente depressivo que se seguiu aos empates do fim-de-semana. Mas no fim, é no campo que se vencem campeonatos. E quanto a isso, nem o Benfica é uma equipa com as debilidades que foram proclamadas aos sete ventos nas últimas semanas, nem o Porto a formação avassaladora que vinha sendo anunciada.

Resumindo: o Benfica, com um plantel menos caro, tem mais qualidade individual que o Porto (imagine-se o que seria a equipa de Espírito Santo com a onda de lesões do Glorioso), enquanto o Porto é taticamente mais competente. Mas o plantel do Benfica de hoje tem vários jogadores habituados a vencer, o que poderá fazer toda a diferença no clássico da Luz. E na decisão do título.

publicado no Record de 21 de Fevereiro