"I hope the fences we mended
Fall down beneath their own weight"

John Darnielle

padaoesilva@gmail.com

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Gratidão, Luisão





Imagine que tem 35 anos, foi titular indiscutível durante mais de uma dezena de temporadas, acaba de terminar um ano em que jogou pouco e a sua equipa sagrou-se campeã nacional com um jogador dez anos mais novo na sua posição. Agora acrescente que, durante o defeso, foi visto como sendo dispensável, empurrado para um colosso das West Midlands, de nome curioso, que se arrasta por um campeonato secundário, mas que estava disponível para lhe pagar um salário exorbitante. Contra a vontade de muitos, que olhavam para a sua saída com alívio, ficou. Mas a história não termina assim. Como se não fosse suficiente, no início da época as lesões arreliadoras não o abandonavam e perdeu a titularidade. A custo, aproveitou a oportunidade e regressou ao seu posto na defesa e na equipa.

Em catorze temporadas de águia ao peito, poucas coisas dão tão bem conta da fibra de que é feito Luisão como o que se passou nos últimos meses. De jogador proscrito por muitos a titular aos 36 anos e à beira de completar, hoje, 500 jogos oficiais pelo Glorioso. Os números são de outro tempo, quando os jogadores estavam amarrados a um só clube, mas o que mais destoa é a força mental para recusar o fim da relação com o Benfica.

É este o nosso capitão. Um Luisão que já não terá as qualidades do passado, mas dá outras coisas fundamentais à equipa. Se hoje o Benfica está sempre mais próximo das vitórias, deve-o também a um jogador que, num plantel repleto de talento, mas, também, muito jovem, oferece um suplemento de maturidade e liderança para compensar a inexperiência.

"Gratidão" é de facto a palavra exata.

publicado no Record de 14 de fevereiro

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Em busca de um 8

Nas últimas semanas desenvolveu-se um consenso: o problema do Benfica era a baixa de forma de Pizzi. Logo, era necessário ter uma alternativa para a posição 8. Registo que esta discussão tem anos, tendo-se acentuado desde a saída de Enzo.

Deixando de lado o facto do próprio Enzo ser uma adaptação, já quando o argentino saiu, o Benfica teve dificuldade em arranjar uma solução e desviou Pizzi para o meio. Depois, com Vitória, a equipa passou um par de meses com o mesmo problema. Foi então que Renato surgiu, encheu o campo, e com Pizzi a descair para a ala, a equipa reequilibrou-se rumo ao 35. Este ano, a história repetiu-se e passou a ser necessário substituir Renato.

Contra as expetativas, a temporada iniciou-se com Horta a titular. Entretanto, a vaga de lesões devolveu Pizzi ao meio. Meses passados, com o transmontano a acumular jogos nas pernas, os problemas ressurgiram porque, é sugerido, Pizzi não pôde descansar.

E se o problema for outro? É que, de facto, não há muitos jogadores para jogar a 8 num meio-campo a dois (a posição é muito exigente técnica, tática e fisicamente) e aqueles que o conseguem fazer rapidamente serão vendidos (os colossos europeus não andam a dormir). Mais, quantas equipas europeias de topo jogam com o sistema do Benfica? Nenhuma.

Conclusão: como um 8 como o Benfica necessita para o sistema que usa é uma espécie rara, estaremos sempre à procura de um jogador para a posição. Que fazer? talvez pensar num sistema alternativo, com um meio-campo a três e que não peça tanto de um jogador difícil de encontrar.

publicado no Record de 7 de Fevereiro

Sem Frescura

Na flash interview, Arnaldo Teixeira afirmava que "no Benfica somos conscientes, sabemos, desde o princípio da época, que o campeonato vai ser longo, difícil. Vai ter luta até ao último segundo da última jornada". É um facto, mas convém não tornar o caminho ainda mais difícil.

O que aconteceu no Bonfim não foi propriamente uma surpresa. O resultado vinha sendo anunciado nas últimas semanas. Depois de Guimarães, a equipa foi perdendo frescura física e anímica e, pelo caminho, foi diminuindo o discernimento. Sem Grimaldo, com Nélson menos disponível e agora sem Guedes, o Benfica fica com menos profundidade e sem aceleração. Ao mesmo tempo, no meio – onde está sempre a raiz de todos os problemas e de todas as soluções – a equipa passou a ter menos critério e o jogo foi ficando crescentemente atabalhoado, ao ponto de, ontem, praticamente não terem sido criadas oportunidades flagrantes.

Uma vez mais, ficou demonstrado que a sorte e o azar, no futebol, contam menos do que se pensa. Podemos bem, com justiça, queixarmo-nos de um penálti incrível que ficou por marcar ou lamentarmo-nos da fortuna do Setúbal que, com uma única oportunidade, venceu o jogo. A questão, contudo, é outra. Num momento de menor frescura, o Benfica precisa de ter um processo coletivo mais sólido quando se vê em desvantagem, em lugar de apostar, como tem acontecido, na muita qualidade individual dos seus jogadores e nesta opção estranha de ir acrescentando avançados e extremos à medida que os minutos vão passando.

Agora, há que olhar para a frente, mas convém atentar retrospectivamente no que tem corrido mal.

publicado no Record de 30 de Janeiro

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Uma Fejsada?



O curriculum impõe respeito: com 28 anos, leva nove títulos consecutivos de campeão nacional. Tricampeão pelo Partizan de Belgrado, outra vez tricampeão pelo Olympiacos e, claro está, o tri com a camisola do glorioso ao peito. Quem tem Fejsa na equipa, arrisca-se mesmo a vencer campeonatos.

Não se pense, contudo, que o sérvio funciona como um talismã. Nada disso. Aliás, no Benfica 2016/17, Fejsa é jogador preponderante pelo que joga. Não por acaso, desde que se lesionou, a equipa passou a sofrer mais golos: em quatro jogos, os adversários marcaram por cinco vezes. Pior, diminuíram as recuperações em terreno avançado, que permitem ao Benfica as transições ofensivas rápidas que são uma das marcas da equipa.
A campanha do Benfica desta época tem sido uma espécie de manual de sobrevivência, com lesões em catadupa. Só com um plantel muito rico seria possível liderar, tendo em conta o número de jogadores que se foi acumulando nos estaleiros do Seixal. Mas, até ver, nenhum jogador se tem revelado tão difícil de substituir como o sérvio.

Sem Fejsa em campo, a equipa recua defensivamente, os espaços no meio-campo, que antes não existiam, surgem do nada, Pizzi tem mais dificuldades e os laterais perdem cobertura. Enquanto a equipa recua, o ataque ressente-se também. Não se trata, por isso, de uma Fejsada. O Fejsa é mesmo um grande jogador e só o histórico de lesões que o acompanha é que explica que ainda esteja por Portugal. A sua recuperação será determinante para o tetra do Benfica e para o seu decacampeonato consecutivo. Deve ser caso quase único na história do futebol.

publicado no Record de 24 de janeiro

A jogar contra os números

Há golos que valem mais do que outros. Estatisticamente é mesmo assim: numa análise ao campeonato inglês, em ‘The Numbers Game’, Chris Anderson e David Sally concluem que, quando uma equipa marca três golos, os adeptos podem abandonar o estádio com alguma segurança. A probabilidade de vitória é altíssima, 85%. Já a de derrota para quem está a perder por três a zero é ainda mais elevada, 95%.

Está-se mesmo a ver do que estou a falar. O Boavista marcou três golos, empatou e fugiu às probabilidades. Porquê? Lá está, porque depois disso o Benfica marcou três vezes, o que é ainda mais improvável.

Ora o problema esteve mesmo aí. A perder por três, o Benfica passou a ter as estatísticas a jogar contra si. Esqueçamos por um momento a arbitragem lastimável – sei que não é fácil – e concentremo-nos no desafio psicológico. A sofrer três golos em casa contra um adversário bem mais fraco, o principal risco do Benfica era o descontrolo emocional. Não aconteceu, até porque essa tem sido uma das virtudes da equipa com Rui Vitória.


Paradoxalmente, foi quando empatou o jogo que o Benfica deixou de ser dominador. Estranho? Nem por isso. A perder por três, Vitória inovou taticamente e o Benfica recuperou a desvantagem. Aquando do empate, era necessário regressar ao sistema tradicional e reequilibrar a equipa. Mas, a partir de então, o Benfica não mais se reencontrou: emocional, física e, acima de tudo, taticamente. Sem substituições disponíveis, com um engarrafamento de jogadores nas alas e falta de presença no meio-campo, o Benfica deixou de ameaçar o Boavista. As estatísticas adversas fizeram o resto.

publicado no Record de 17 de janeiro

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

A culpa é do Benfica

A culpa tem as costas largas e, como é sabido, as costas do Benfica são tão largas que, agora, não há responsabilidade pelo fracasso do Porto e do Sporting que não seja imputada ao Benfica. Percebe-se: quando se perde, nada como encontrar um responsável imediato pelos insucessos. Afinal, esta é a melhor forma de ocultar insuficiências próprias – do planeamento da época às contratações, passando pela forma como se prepara os jogos.

A sugestão de que o Benfica é, alegadamente, uma entidade toda poderosa que tudo determina, serve um propósito: os dirigentes iludem os adeptos, fazendo com que estes esqueçam as causas profundas para as derrotas.

Mas este jogo de culpas, enquanto produz um efeito de ocultação, tem consequências desportivas imediatas. Desresponsabiliza os jogadores e empurra-os para novos fracassos.

De cada vez que é dito que um clube perde por causa dos árbitros ou, ainda mais absurdo, por influência de outro clube que nem sequer está em campo, os jogadores sentem-se ilibados e transferem a responsabilidade pelos falhanços para outros fatores que não o jogo jogado. Mais, sempre que tal acontece, a equipa aproxima-se de uma espiral de insucesso, entrando em campo derrotada – pois, faça o que fizer, os resultados estão pré-determinados. A instabilidade emocional que Sporting e Porto têm mostrado nos últimos jogos é prova disso.

Como benfiquista, faço votos para que insistam nas justificações que têm utilizado. E confesso, também penso que a culpa é do Benfica. Aliás, é um sentimento com o qual vivo diariamente. Desde o dia em que nasci.

publicado no Record de 10 de Janeiro

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Mão na bola

Hoje é terça-feira, um dia que pode ser adequadamente descrito como aquele que se segue a uma noite na qual, num sem número de canais das televisões portuguesas, se discutiu para lá do absurdo quantas mãos na bola foram intencionais ou, pelo contrário, foram bola na mão. Lances e lances são autopsiados de todos os ângulos, sem que o processo se traduza em qualquer tipo de aproximação à verdade desportiva. Pelo contrário, a autópsia dos jogos de futebol tem tido um efeito contrário: enquanto se dissecam os jogos, acentua-se a degradação do ambiente em torno do futebol.

Esta idiossincrasia nacional tem explicações: três pessoas em volta de uma mesa a discutir futebol é um produto televisivo barato e que dá audiências fáceis. Mas o registo demencial que atingem muitos destes programas não deve ser desvalorizado. E pode bem ter consequências sérias.

Por natureza, o futebol é um espaço de paixões e de visões feridas pela clubite. É precisamente isso que o torna um último reduto romântico, protegido da racionalidade burocrática que marca o resto do quotidiano. Mas há uma diferença do tamanho do mundo em não esconder um olhar sentimental e saudavelmente parcial em torno do futebol e deixar que esta visão se transforme numa cultura de ódio, marcada por histrionismo e por tribalismo.

Uma cultura que está nas televisões é amplificada nas redes sociais e encontra respaldo em altos dirigentes que, irresponsavelmente, se comportam como líderes de claques. É preciso gostar muito de futebol para tolerar este clima, que, estou convencido, é alimentado por pessoas que nem sequer gostam do jogo jogado.

publicado no Record de 3 de Janeiro

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Um ano à Benfica

Os números falam por si: em 2016, apenas com uma partida por disputar, o Benfica leva 43 vitórias em 53 jogos. No campeonato, somou 93 pontos, o Sporting 78 e o Porto 71. Um registo que destoa em Portugal, mas que impressiona mesmo nas comparações europeias. Se pensarmos nos clubes de topo das principais Ligas, todos têm menos vitórias do que Benfica neste ano civil. Do Real à Juventus, passando pelo Bayern e PSG.

O que explica esta senda vitoriosa do Glorioso, que nos devolve a uma hegemonia que chegou a parecer uma miragem do passado?

Em primeiro lugar, estabilidade nas opções estratégicas. Sendo verdade que o futebol vive do momento, o Benfica não alterna entre voltas olímpicas aquando de vitórias conjunturais, nem entra em depressão com os desaires. Pelo contrário, na vitória e na derrota percebe-se que há um rumo, que passa por um projeto desportivo, cada vez mais, assente na potenciação de jovens talentos.

Depois, critério na escolha de protagonistas (dos jogadores aos treinadores). Da equipa da temporada passada, até dezembro, o Benfica perdeu quatro jogadores fundamentais (Gaitán, Renato, Jonas e Jardel). Paradoxalmente, pouco mudou em termos de resultados. Sai Renato do meio, entra Pizzi ou Horta; perdemos Gaitán e joga Cervi ou Rafa. Jonas e Jardel demoraram a voltar e quem os substitui quase que os faz esquecer. E fica-se com a sensação que, saindo mais alguém, já há ou surgirá substituto à altura. No Benfica de hoje, não há insubstituíveis.

No fim, claro está, a sorte desempenha o seu papel. Mas mesmo essa, como é sabido, nunca é fruto do acaso.

publicado no Record de 27 de dezembro

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Um cheirinho a Jonas

Há perto de dois anos, logo a seguir à estreia de Jonas, escrevi aqui que o brasileiro ia ser mais importante por aquilo que ia oferecer ao futebol atacante do Benfica do que pelos golos que iria marcar. 86 jogos e 68 golos depois, devia reconhecer que me enganei redondamente. Talvez não seja o caso.

Por estranho que possa parecer para um jogador que marca em média 30 golos por temporada, Jonas é essencial pela sua participação no futebol ofensivo do Benfica e não pela veia goleadora. Tenho, aliás, a convicção que Rui Vitória tem tido no Benfica dois aliados estratégicos: Jorge Jesus, que, por antinomia, o ajudou a consolidar a liderança no balneário; e Jonas, que, em campo, superou os problemas táticos da equipa.

Uma vez mais, será esse o papel de Jonas. Repare-se: na Amoreira, o Benfica sofreu contra uma equipa fraca e após uma substituição obtusa – a troca de Cervi por Mitroglou –, ofereceu 10 minutos ao Estoril, que podiam bem ter custado pontos. Pois, tudo mudou com a entrada de Jonas. Como que para provar que, num jogo coletivo, um só jogador pode fazer toda a diferença, Jonas esbanjou inteligência e qualidade futebolística, matando o jogo.

Num Benfica que vive em aceleração permanente e que tem dificuldade para controlar um jogo com posse de bola, Jonas fará toda a diferença. Com ele em campo, o Benfica voltará, com critério, a saber pausar o jogo e, quando em vantagem, deixará de sofrer. Claro está que o brasileiro se encarregará, também, de marcar os golos que os outros falham ou nem sequer vislumbram.

publicado no Record de 20 de dezembro

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

O resto são cartolinas

Rui Vitória definiu uma estratégia inteligente para o desafio com o Sporting. Antecipando a inferioridade do Benfica no meio-campo (onde a dupla Adrien e William é muito forte), escolheu contornar as dificuldades. Deu a iniciativa ao Sporting, jogou em transições rápidas e explorou o ponto fraco dos de Alvalade, a defesa, em particular o espaço entre centrais e laterais. O futebol direto de Ederson para Jiménez não deu descanso à equipa leonina. Teria sido um erro se o Benfica tem jogado em ataque organizado frente ao Sporting que é forte no ataque organizado.

Mas se o Benfica levou vantagem na estratégia, Jorge Jesus foi perspicaz na leitura tática que fez do evoluir do jogo. A perder, soube mexer no onze, melhorando muito o futebol do Sporting. Pelo contrário, Vitória, num primeiro momento, fez a equipa recuar muito e afastou Pizzi do centro nevrálgico. Arriscou demasiado e só após a entrada de Cervi a equipa se recompôs, para não mais perder o controlo.

Se o Benfica levou vantagem na estratégia e o Sporting na tática, o que é que explica o resultado?

Os mesmos fatores que têm feito diferença nos últimos tempos: a qualidade individual dos jogadores do Benfica e o empenho que colocam em cada disputa. Uma equipa que se habitou a ganhar, mas que aborda cada jogo como se fosse determinante. Sintomaticamente, no final da partida, os jogadores celebraram a vitória, em círculo no meio do relvado, como se tivessem conquistado algo decisivo. Quando assim é, a sorte do jogo tende a sorrir e torna-se bem mais fácil controlar o que no futebol é aleatório. O resto são ‘cartolinas’.

publicado no Record de 13 de dezembro

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

A palhaçada do antijogo

Discute-se muito o recurso a tecnologias como forma de promover a verdade desportiva. Mas há razões para ceticismo.

Primeiro, porque o futebol sem controvérsias perderia uma parte do encanto e deixaria de ser tema de conversa durante o resto da semana; depois, basta ver programas televisivos onde se discutem ‘ad nauseam’ lances duvidosos para se perceber que a verdade é uma quimera subjetiva que nenhuma realização televisiva conseguirá desvendar; finalmente porque os recursos tecnológicos necessários a uma verdade insofismável criariam uma desigualdade difícil de gerir, entre jogos com muitas câmaras e outros com poucas.

Mas enquanto a verdade segue por caminhos sinuosos, há uma outra praga que, se impossível de ser irradiada, podia ser combatida: o antijogo. Não têm faltado exemplos recentes no campeonato português em que não se joga futebol nos últimos 15 minutos da partida. Aqui o problema não é de verdade desportiva, é a degradação de um espetáculo que é pago e que deve estar ao serviço de quem o presencia. Nada justifica a persistência da palhaçada do antijogo e há formas de a combater. Dois exemplos, que podiam ser ponderados.

Pôr fim às paragens para assistir jogadores indispostos. Tal como no râguebi, a equipa médica devia entrar em campo e ser encarada como participando no jogo. Nos últimos cinco minutos das partidas, o cronómetro devia parar sempre que a bola não estivesse em movimento, à imagem do que acontece em muitos desportos de pavilhão. Não são soluções miríficas, mas ajudariam a contrariar os incentivos perversos que hoje existem para que o antijogo compense.

publicado no Record de 6 de dezembro

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Os números de Vitória

Os números não revelam tudo, mas tendem a ser uma aproximação à realidade. Note-se nos de Rui Vitória ao comando do Benfica. Cumpridos 70 jogos na "cadeira de sonho", Vitória tem 77% de vitórias. Só é ultrapassado pelos registos, já distantes, de Béla Guttmann e Fernando Riera e está empatado com o mítico Cosme Damião, Artur Jorge no Porto e Szabo no Sporting. Neste século, só Mourinho é que se aproxima com 51 vitórias nos primeiros 70 jogos pelo Porto, que comparam com as 54 do atual técnico do Benfica. Se a comparação nacional impressiona, que dizer da europeia? Em 2016, Rui Vitória é o segundo técnico com melhor registo de vitórias, só ultrapassado por Luís Enrique no Barcelona.

Claro está que o treinador não é o único e, eventualmente, nem sequer o principal responsável pelos sucessos do Benfica dos últimos tempos. Estabilidade nas opções estratégicas do clube, uma política de contratações com sentido e – fundamental – com um horizonte de médio prazo, facilitam a vida a qualquer treinador. Parafraseando a máxima do saudoso "velho capitão", no Benfica de hoje, qualquer treinador se arrisca a ser campeão. Mas ajuda – e muito – ter um técnico que não se coloca acima da estratégia do clube, que não descarta responsabilidades quando a equipa falha e que gere com bom senso os sempre difíceis equilíbrios do balneário.

Talvez tudo isto ajude a explicar outros números que impressionam no Benfica de 2016/17. Com cinco partidas disputadas – e ainda sem clássicos –, a Luz tem uma média de assistências acima dos 55 mil espetadores, consolidando a tendência de crescimento das temporadas anteriores.

publicado no Record de 29 de novembro

 

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

A alegria do povo




Desde sábado que ando com uma sensação estranha: tenho a impressão de que, para onde quer que me vire, me arrisco a ver o Guedes e o Nelsinho a passarem por mim a correr, imparáveis, a alta velocidade. Digo-o agora em público sem reserva, pois, em privado, já partilhei a sensação com um par de amigos que me confidenciaram sentir o mesmo.

Não sou o único, mas isso não me impede de saber que o primeiro passo para ultrapassarmos um estado de perturbação psicológica é reconhecer que alguma coisa está errada. Tenho feito um esforço nesse sentido e consultei os melhores especialistas. O António Tadeia diagnostica a facilidade do Benfica em "meter as mudanças de velocidade à entrada dos últimos 30 metros". O Pedro Bouças, que dá consultas ao grande público no Lateral Esquerdo, afiança que o segredo do Guedes está na mobilidade em aceleração que garante opções de passe e nos desequilíbrios em condução. Já o Nelsinho é um caso à parte de critério e dinâmica: notável na forma como vai superando situações de inferioridade em espaços curtos. Até o Carlos Daniel, pese embora o seu espírito hipercrítico, me confidenciou: vejo muita evolução. Os dois mais competentes, o Nelsinho a defender melhor e a temporizar com propósito e o Guedes muito bem por dentro, com espaço para explodir e cada vez melhor na decisão.

Pois eu, que sempre que o tema é o Benfica sou estruturalmente dado a devaneios pueris, limito-me a constatar o óbvio: temos de aproveitar os poucos meses em que o Guedes e o Nelsinho vão estar por cá, vestidos com as camisolas berrantes, a encher-nos de alegria.

publicado no Record de 22 de novembro

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Todos os homens



You thought that it could never happen
to all the people that you became,
your body lost in legend, the beast so very tame.
But here, right here,
between the birthmark and the stain,
between the ocean and your open vein,
between the snowman and the rain,
once again, once again,
love calls you by your name.
(...)


A voz foi ficando mais grave e trémula, enquanto adquiria ainda mais drama; o corpo foi-se curvando, mantendo elegância, e aproximando-se da imagem do “pequeno judeu que escreveu a Bíblia”. Mas, em Leonard Cohen, o tempo nunca fez sentido. Cohen nunca foi um homem da sua época, nem de nenhuma época. Na verdade, nunca foi jovem. Nasceu já com uma maturidade absoluta, vestido com um fato de corte impecável e chegou ao mundo da música tarde (para conquistar todas as mulheres?), quando já havia ganho reconhecimento como poeta e escritor. Se bem que se tenha aproximado dos movimentos folk e da poesia beat, dificilmente se pode dizer que pertencia a um grupo ou fazia parte de uma tendência.
Mas se o tempo não ajuda a compreender o legado de Cohen, a sua biografia ajuda a revelar a sua obra. O órfão que se torna aos nove anos o único homem de uma casa de mulheres; o judeu oriundo de uma das famílias mais influentes da comunidade judaica do Canadá; o pré-adolescente que aprende hipnotismo para despir a empregada; o estudante que se envolve nos círculos intelectuais de Montreal; mas também o jovem escritor que parte em busca de sucesso literário em Nova Iorque e Londres; o músico que tem um sucesso súbito e que vive uma vida boémia, repleta de anfetaminas, álcool e muitas mulheres; para logo depois buscar o recolhimento pleno de brancura, em Hydra, nos braços de Marianne; o homem maduro, de uma religiosidade profunda, que se recolhe num mosteiro budista, levando um quotidiano de um ascetismo radical, mas que nunca abandonou o judaísmo; o amante convicto de um rol infindável de musas; o Pai dedicado de Adam e Lorca. Cohen foi todos os homens e esteve em todas as suas canções.
É certo que entre os 14 álbuns que lançou há elementos de mudança. Ao princípio, a voz era menos espessa e a guitarra bem mais presente (que conta a lenda aprendeu a dedilhar com um espanhol radicado no Canadá, amante de Lorca, e que se suicidou após algumas lições com o jovem Leonard), depois da trilogia inicial, o ambiente foi ficando mais denso (com Songs of Love and Hate), para mais tarde enveredar por uma “parede de som”, numa trip alucinada, em colaboração com Phil Spector (Death of a Ladies Man). Na passagem dos anos 70 para os 80, perdeu algum fulgor e reconhecimento público (Various Positions começou por não ter distribuição nos EUA) para começar uma nova fase a partir de I’m Your Man, de voz mais grave e acompanhado pelos teclados roufenhos e de gosto duvidoso que se tornariam imagem de marca. Pelo caminho, a compilação de reinterpretações, I’m Your Fan, primeiro, e um desfalque financeiro, depois, que o devolveu às tournées e tornou possível uma notável trilogia final (Old Ideas; Popular Problems e You Want It Darker), deram-lhe o reconhecimento de um público mais alargado.
Há, contudo, no essencial, elementos de continuidade entre Songs of Leonard Cohen e o recente You Want It Darker. A toada melancólica e um horizonte sombrio, as melodias envolventes, variações incessantes do mesmo canto lento, mas, acima de tudo, temáticas persistentes: a tentativa de lidar com a beleza absoluta através da palavra (o que é próprio dos “oprimidos pelas figuras de beleza”), o confronto com o juízo final (I'm ready, my lord”, canta a abrir You Want it Darker), um ensimesmamento reflexivo que coexiste com uma sexualidade exuberante e uma celebração do amor, transformada em nostalgia sobre as paixões passadas. Sobre tudo pairou sempre um espectro apocalíptico (“I’ve seen the future and it’s murder”), só superável pelo diálogo com Deus. Cohen pareceu sempre ter sido deixado sem escolha – para além de conferir um sentido ao amor, à sexualidade e à religiosidade através do “dom de uma voz dourada”. Stranger Song, tema marcante do álbum de estreia, sugere o mesmo descontentamento e busca de redenção (“It's true that all the men you knew were dealers/who said they were through with dealing/Every time you gave them shelter”) que Treaty, canção que, sintomaticamente, encerra o derradeiro disco (We sold ourselves for love but now we're free/I'm sorry for the ghost I made you be/Only one of us was real and that was me”). Nos dois casos, a paixão é um alimento para a insatisfação do espírito.

É conhecida a conversa entre Dylan e Cohen, onde o agora prémio Nobel terá dito, com convicção: “Leonard, tu és o número 1; mas eu sou o número zero”. Talvez seja uma forma de descrever a diferença. Dylan é um fenómeno cultural, um reinventor incessante do cânone. Cohen é a versão mais perfeita do cânone. A forma superior como ligou poesia com música foi seguida por muitos, mas está longe de ter sido alcançada.



Com a mentira m'enganas

Desde George Orwell que sabemos que quem controla o passado, controla o futuro e quem controla o presente, controla o passado. É assim que deve ser entendida a tentativa de Bruno de Carvalho de reescrever a história dos títulos de campeão nacional. Não fora a iniciativa tão tosca e desconforme com os factos, Bruno de Carvalho arriscava-se mesmo a ser o presidente do Sporting a conquistar mais títulos num só mandato – para já, quatro campeonatos em três anos. Seria obra, não fora ser na secretaria.

Regressemos ao estimulante exercício de revisionismo. O argumento do presidente do Sporting parte do pressuposto de que o Campeonato de Portugal disputado até 1938, por eliminatórias, corresponde ao Campeonato Nacional. Podia fazer sentido, não fora a hipótese não ser acompanhada por ninguém, nem sequer pelo autor do ‘Almanaque do Leão’, Rui Miguel Tovar. Aliás, a própria Federação, aquando da alteração das competições, logo em 1938, teve o cuidado de consagrar a doutrina, para memória futura, "Por virtude da reforma a que se procedeu no Estatuto e Regulamentos da Federação, os Campeonatos das Ligas e de Portugal passaram a designar-se, respetivamente, Campeonatos Nacionais e Taça de Portugal".

Talvez a explicação para este ímpeto de conquistas esteja na história recente: desde que Bruno de Carvalho foi eleito, há uma regularidade estatística – o Benfica sagrou-se sempre campeão. Não sei se há correlação entre os dois eventos, em todo o caso, tendo em conta que o presidente do Sporting se alimenta a antibenfiquismo, talvez o assunto o preocupe.

publicado no Record de 14 de novembro

Bafejados pela sorte?

No domingo, nem o Porto foi tão superior como se quis fazer crer, nem o Benfica tão afortunado como sugere um empate alcançado nos descontos. Olhemos para os números: vantagem do Porto nos remates (17/12) e nos remates enquadrados (8/2), mas, em todos os outros indicadores, houve grande proximidade entre as equipas. Equilíbrio total na posse de bola, ligeira vantagem nas oportunidades de golo criadas para o Porto (13/11) e na eficácia do passe (81%/77%). Apesar de tudo, o Benfica venceu mais duelos (54/51) e teve mais cantos a favor (9/6).
Claro está que os números não dizem tudo e para quem viu o jogo não sobram dúvidas: Nuno Espírito Santo preparou melhor a estratégia com que abordou a partida e remeteu o Benfica para uma toada defensiva, que Rui Vitória devia ter contrariado bem antes de sofrer o golo. Mais, ficou a sensação de que, em partidas a doer e com muitas baixas, o Benfica deixa de poder depender tanto do talento individual e pressente-se alguma falta de critério coletivo. Continua aí a principal debilidade estrutural deste Benfica.
Mas enquanto Rui Vitória foi superior na forma como mexeu na equipa, Espírito Santo deu demasiados sinais defensivos nas substituições, oferecendo ao Benfica um controlo do meio-campo que tinha perdido completamente na primeira parte.
No fim, o empate e a confirmação de que a sorte desempenha um papel importante no futebol: não fora a rosca de Herrera e a falha de marcação do Porto num canto aos 92 minutos, estaríamos a falar de uma partida diferente. Contudo, por paradoxal que possa parecer, nem sequer a sorte é fruto do acaso.
publicado no Record de 7 de Novembro


quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Contra o entusiasmo


Há um ano, por esta altura, o Benfica era uma equipa destroçada. Sem fio de jogo, a viver uma transição traumática de treinadores e a acumular maus resultados. Antes da deslocação a Braga, a questão que se colocava era se fazia sentido começar a preparar a nova temporada, mudando de treinador e lançando novos jogadores ou, pelo contrário, teimar numa aposta que parecia falhada. Entretanto, o Sporting liderava o campeonato com uma vantagem que era sensivelmente a mesma que o Benfica tem agora. Sabemos bem como terminou o campeonato.
E sabemos também que pequenos fatores fizeram uma grande diferença: a entrada de Renato na equipa, que ligou os setores e conferiu dinâmica ao futebol do Benfica, e uma dupla atacante (Jonas e Mitroglou) que começou a marcar golos em catadupa. Claro está que, não fora o excesso de confiança demonstrado pelo Sporting, a vantagem amealhada pelos de Alvalade não teria sido delapidada.
É essa a principal lição que o Benfica agora deve recordar. Não há lideranças confortáveis e nem os adversários são tão frágeis como sugerem os resultados deste fim-de-semana, nem futebolisticamente o Benfica é tão superior como indicia a tabela classificativa. O Porto, por estar liberto da tensão entre Benfica e Sporting, tem a vantagem de correr por fora e tem este ano mais soluções em posições chave; já o Sporting tem um excelente treinador, com um plantel desenhado à sua medida e que é bem mais completo do que o do ano passado. É por isso que, agora, contrariar o entusiasmo natural que se sente na família benfiquista é tão importante como ultrapassar as fragilidades futebolísticas que ainda existem.


publicado no Record de 1 de novembro

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Saiu quem?

A certa altura do play-off deste domingo, com a sagacidade que o caracteriza, Augusto Inácio questionava repetidamente, “saiu quem do Benfica?”. A pergunta, está visto, visava demonstrar que o Sporting tinha sido particularmente afetado no defeso, com a perda de João Mário e de Slimani. É um facto. Mas talvez valha a pena ajudar o ex-diretor de relações internacionais do Sporting.
Dos cinco jogadores mais importantes da equipa que venceu o tricampeonato, o Benfica perdeu Gaitán e Renato Sanches e Jonas e Jardel ainda não jogaram, envolvidos que estão nessa praga clínica de proporções bíblicas que afeta o Seixal. Se juntarmos as lesões à vez de Ederson e Júlio César e os escassos 70 minutos de Rafa (o reforço mais sonante), de facto, é caso para dizer que, tirando estes, ninguém saiu do Benfica. No fim, o jogador mais propenso a lesões, Fejsa, é o único sobrevivente do cinco que liderou o Benfica rumo ao 35.
São, na verdade, muitas “saídas”. E se somarmos a saída do cérebro há um ano e o facto de termos uma equipa à deriva, que, é-nos dito, nem sequer treinador tem, a dinâmica de vitória do Benfica é miraculosa.
Ou talvez não. Apesar de tantas saídas, há explicações para o Benfica continuar a vencer. É que “saem” jogadores, mas há coisas que se mantêm: o compromisso competitivo; a intensidade com que se encaram os jogos; a concentração exclusivamente no próprio grupo; a humildade com que se enfrenta os adversários. Tudo qualidades mais difíceis de garantir do que uma mão-cheia de reforços comprados com pouco critério.


publicado no Record de terça-feira