"I hope the fences we mended
Fall down beneath their own weight"

John Darnielle

padaoesilva@gmail.com

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Caos Criativo



O saxofonista Ornette Coleman disse um dia que o "jazz é a única música em que a mesma nota pode ser tocada noite após noite, mas de forma diferente de cada vez". Lembrei-me do criador do free-jazz quando este fim-de-semana assistia, pela enésima vez, ao carrossel atacante do Benfica. E a questão é mesmo a repetição do "carrossel atacante".

Há quatro anos que se usa a expressão para caracterizar a forma como o Benfica ataca, envolvendo um grande número de jogadores em movimentações imprevisíveis. Ora parece-me bem que estamos perante um problema de denominação: se as movimentações são imprevisíveis não podemos falar de um carrossel – por natureza uma formação em movimento circular e sem variação.

Quando, depois de 20 minutos de jogo, a Académica em asfixia implorava por uma pausa para respirar, ficou, para mim, claro que a gramática à qual obedece o Benfica não é a de um carrossel, aproxima-se mais do caos criativo, próprio do jazz. Reparem, há um equilíbrio colectivo, mas que está ao serviço dos desequilíbrios individuais dos solistas e que radica num método muito trabalhado, mas quase invisível.

A agressividade com que o Glorioso encara os jogos não se aproxima do movimento repetitivo do carrossel. Pelo contrário, o objectivo é sempre alterar as convenções táticas: como sugeria Coleman, tocar a mesma nota, mas fazê-lo sempre de forma diferente. Umas vezes, com Lima a cair nas alas, outras com Gaitán a fletir para o meio, outras com Sálvio na zona de finalização e, claro está, com Jonas a fazer tudo bem em todo o lado.

Tal como no jazz, mesmo nas suas variações mais radicais, esta criatividade pressupõe uma organização que é tão mais complexa e eficaz, quanto mais invisível e trabalhada. Afinal, nada é tão exigente como uma boa improvisação.

Resta agora superar um desafio: exibir este caos criativo em todos os palcos e não apenas na Luz.

publicado no Record de terça-feira

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Dylanesca

há 8 anos, com 17 anos, a Laura Marling estreava-se no Jools Holland. Notava-se a idade (ou talvez não).



Ontem, do esplendor dos seus 25 anos, foi lá fazer esta exibição de maturidade.



tenho a certeza que o Bob Dylan, onde quer que esteja, deve gostar disto.

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Um dia na vida

cumprem-se hoje 45 anos desde o dia em que o mundo ficou a saber que os Beatles tinham acabado.

quarta-feira, 8 de abril de 2015

A Maré Vermelha


No incontornável "Red Pass" desse benfiquista emérito que é o João Gonçalves, encontrei um SMS lapidar do Ricardo Araújo Pereira, ainda a propósito dos tímidos assobios que se fizeram sentir na parte final do Benfica-Nacional: "Jorge Jesus conseguiu trazer de volta o Benfica da minha infância: a equipa faz uma grande exibição e é assobiada. O Benfica voltou."

Nos últimos anos, perdemos campeonatos de forma inglória, mas, mesmo nas derrotas dolorosas, abandonámos a atitude condescendente de quem encontra algum conforto no "quase". Nisso, voltou o Benfica com o qual cresci: uma equipa viciada em vitórias, para a qual tudo o que não fosse esmagar os adversários sabia a pouco. Mas também um Benfica que não tolerava exibições cínicas e resultadistas. No Benfica dos meus anos formativos, não bastava vencer, era preciso fazê-lo, para utilizar um neologismo, com "nota artística".


Bem sei que o Jorge Jesus é um casmurro com poucos paralelos, que continua a não conseguir montar uma equipa capaz de controlar um jogo com bola, ou que insiste em não fazer a vontade ao adepto de bancada (digam lá, este não era o jogo ideal para o Jonathan Rodríguez entrar aos 70 minutos? Ou para o Gonçalo Guedes aproveitar para brilhar sem pressão?), mas, nos últimos anos de Benfica, há um antes e depois de Jesus. 

O Gaitán resumiu aliás de forma exemplar o que se passa, quando, no final do jogo, afirmou que "o Benfica pratica um bom futebol e as pessoas divertem-se. Isso é o mais importante". Diria que os jogadores divertem-se e divertem-nos, o que explica o regresso da maré vermelha e, claro está, dos assobios. Os adeptos habituaram-se a vencer de forma convincente; agora, os jogadores têm de se habituar à exigência de quem já não tolera jogos amorfos. O Benfica da minha infância voltou.

publicado no Record de ontem.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Oh Ah Cantona




Quem tem hoje 40 anos recorda-se onde estava quando viu as imagens do muro de Berlim a cair ou da tragédia das Twin Towers e, muito provavelmente, sabe onde primeiro assistiu ao E.T. Cada geração tem um par de imagens icónicas que ajudam a construir uma memória coletiva que se reproduz ao longo do tempo. Há coisas que não se esquecem e o futebol não é exceção.

É certo que há golos memoráveis e jogadas que somos capazes de relatar de cabeça, mas o futebol perdura não apenas como memória afetiva do jogo jogado. Sei onde estava quando aconteceram coisas que mudaram o mundo à minha volta. Da mesma forma que não me esquecerei do lugar e do momento em que vi Cantona, depois de ser expulso contra o Crystal Palace, a avançar para a bancada e a lançar com precisão um golpe de Kung-Fu num adepto que o insultara.

Falo disto porque se cumpriram 20 anos desse gesto grandiloquente, que mudou o futebol inglês, enquanto fez de um jogador notável, uma figura icónica.

Cantona é lembrado pelo seu histórico de vitórias, por ter devolvido o Man. Utd. a um lugar hegemónico e, até, por se ter estreado pelos red devils contra o Glorioso, num jogo de homenagem ao Eusébio. Há também quem sublinhe que foi um dos responsáveis pela alteração do estilo de jogo inglês, continentalizando-o, numa altura em que a Premier League se reinventava, tornando-se o fenómeno global que é hoje. Há um antes e depois de Cantona no futebol inglês.


Pode tudo ser verdade. Mas, o que recordo desse instante definidor, não é a imprudência do gesto, o ato de pura indisciplina, é a prova de que o futebol, na forma como tenta domesticar todos os excessos, canalizando-os para 90 minutos de regras e táticas, exige, para se manter vivo, momentos de respiração pura. Tirando a cabeçada de Zidane na final do Mundial, é difícil recordar-me de outro momento tão icónico no futebol das últimas duas décadas.

















publicado no Record de terça-feira.

Is it worth it?




3 minutos, apresentados como "escapist light entertainment", que voam sem que se dê pelo tempo passar

sexta-feira, 27 de março de 2015

e, até prova em contrário, o disco de 2015 é



que, aliás, pode ser, dylanescamente, resumido assim:

"Who do you think you are?
Just a girl that can play guitar"

quarta-feira, 25 de março de 2015

O problema de sempre

Não restam dúvidas de que o Benfica de Jesus é temível quando engata aquele carrossel ofensivo que asfixia os adversários. Também é sabido que se trata de uma formação que, de quando em quando, é capaz de defender sem bola, para depois lançar contra golpes letais (foi assim este ano no Dragão). Mas há cinco anos que se sabe também uma outra coisa: estamos perante uma equipa incapaz de controlar um jogo com posse de bola. No fundo, o Benfica ou ataca ou defende sem bola, quando procura pautar o ritmo do jogo, adormecendo-o e mantendo o controlo da bola, a equipa falha.

Bem pode Jesus queixar-se da arbitragem, mas em Vila do Conde manifestou-se uma debilidade que acompanha a equipa há algum tempo: a incapacidade para gerir uma vantagem. O problema, por estranho que possa parecer, foi mesmo o golo madrugador. O que não seria problemático caso a equipa tivesse continuado a atacar, procurando o segundo golo. Mas como, por motivos insondáveis, a opção foi deixar passar o tempo, quase abdicar de atacar e fazer uma gestão imprudente da vantagem, no final aconteceu o que vinha sendo anunciado: a derrota e, de longe, a pior exibição da temporada.


E, ao contrário do que foi sugerido nas análises à partida, a mudança do sentido de jogo não ocorreu apenas na segunda parte. Durante a primeira metade, já se pressentia um Benfica apático, que pareceu estar sempre a jogar em inferioridade numérica no meio-campo e que foi incapaz de esticar o jogo, aproveitando os espaços que um Rio Ave a pressionar alto oferecia. 

Mas como nem tudo pode ser mau, não só o que se passou no Estádio dos Arcos deve servir como aprendizagem para os oito jogos em falta (dos quais seis são em Lisboa), como ao FC Porto faltou o estofo de campeão, que surge precisamente nos momentos em que é possível aproveitar as falhas dos adversários.
 
publicado no Record de ontem.