"I hope the fences we mended
Fall down beneath their own weight"

John Darnielle

padaoesilva@gmail.com

quinta-feira, 2 de julho de 2015

A autonomia de Vitória


Já ficou claro que esta época marcará uma ruptura face ao Benfica dos anos anteriores. Há um par de dimensões em que os sinais de mudança são, aliás, visíveis: na forma como o treinador se vai integrar na organização e no aproveitamento da formação feita no Seixal. Mas se é preciso que alguma coisa mude para que se mantenha a dinâmica vencedora, é fundamental que se preserve parte importante do legado.

Desde logo manter uma ideia de jogo assertiva. Se olharmos retrospectivamente, a marca deixada por Jesus é a nota artística, mas a diferença mais duradoura é inequivocamente uma alteração na atitude com que o Glorioso passou a enfrentar os jogos. Com consequências: hoje, quem joga com o Benfica joga para não perder. Na Luz, mas, também, nos jogos fora. Para que o Benfica continue a ser uma equipa temida, é preciso preservar uma ideia de jogo ofensiva.


Tão importante como ter um modelo coerente com a natureza ganhadora do Benfica, é Rui Vitória, à imagem do que aconteceu com Jesus, preservar uma autonomia total para impor o seu sistema. A questão não é de somenos. Depois de Jesus ter concentrado muito poder e de ter tido uma margem de manobra significativa para decidir (quase) tudo (o que teve, aliás, também custos – vide o não aproveitamento do Bernardo), é tentador para o novo treinador procurar auscultar as várias sensibilidades da estrutura antes de decidir. Seria um erro tremendo. Se, por força das circunstâncias, as decisões de Rui Vitória passarem a ser uma espécie de federação de opiniões, o Benfica está condenado a falhar.

Quando se fala da necessidade de Rui Vitória ter as mesmas condições de Jesus, é bom que se tenha presente que não basta ter jogadores com igual qualidade. Tem também de lhe ser garantida a autonomia e a capacidade de decidir a seu belo prazer de que Jesus gozou.

publicado no Record de terça-feira (a Luz Intensa regressa daqui a 4 semanas, já em Agosto)

segunda-feira, 29 de junho de 2015

O que é que Obama deu à América?

para além da sua própria eleição, o Obamacare, uma resposta diferente à crise financeira, a morte de Bin Laden, o casamento entre pessoas do mesmo sexo e, acima de tudo, pôs uma rapariga texana, de muitos talentos, a cantar assim, num "crazy day (legally)".


O apogeu do segundo melhor Vicente do mundo



Muito obrigado.

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Que fazer?




Estranha-se esta sensação de estar em celebração interior e ser atacado pela perda de peças que foram “chave” no bicampeonato e, pior, perceber que tenho de me preparar para mais baixas. Por mais apelos à razão, não é fácil. Podem dizer-me que no futebol moderno a fidelidade clubística é território exclusivo dos adeptos. Sei de tudo isso, mas custa saber que o jogador que vi fazer juras de amor eterno à camisola do Glorioso será o primeiro a trocar essa paixão por um compreensível conforto material.

Não se trata apenas do desejo sempre adiado de um defeso tranquilo, sem vendas, trocas ou empréstimos. É mais do que isso. É também a necessidade de resistir a uma captura do futebol pelas forças da razão.

Chegará um novo ponta-de-lança entusiasmante para substituir o ídolo de hoje e a admiração pelo centro campista de toque subtil que nos abandonou revelar-se-á efémera assim que o jovem talento tiver espaço para se afirmar. Pouco importa: se deixarmos que se transforme num território onde a irracionalidade e as paixões absolutas perdem todo o espaço para a gestão rigorosa e a sustentabilidade financeira, para que é que servirá exatamente o futebol?


Que fazer, então? Encontrar um equilíbrio entre racionalidade e paixão na forma como se gere um clube, até porque no Benfica os principais dividendos a distribuir são as vitórias.

Basta ver o futebol poético do Bernardo no Europeu sub-21 para se ter a certeza que nenhuma análise custo-benefício é capaz de calcular o valor patrimonial da paixão benfiquista daquele miúdo. Nunca, em circunstância alguma, podia ter sido vendido.

Já Maxi, depois de todas as exigências e das ameaças de sair para um rival, delapidou o capital que tinha e perdeu a mística de outros tempos. Faço minhas as palavras do grande Toni: “Por mim, já tinha marchado”.

publicado no Record de terça-feira.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

O anti-Jesus?


O maior erro que Rui Vitória podia cometer na sua afirmação como treinador do Benfica seria surgir como o anti-Jesus, alguém que se pretendia afirmar renegando o modelo que foi consolidado nos últimos anos. Por muito que um treinador tenha uma ideia de jogo que deseja imprimir, esta não se pode traduzir numa rutura radical. Principalmente quando pega numa equipa que vem de campanhas vitoriosas.

Num dos poucos momentos em que foi convidado a falar sobre futebol ontem, Rui Vitória disse isso mesmo. Entre perguntas sobre contratações, confiança, renovações e aposta em jovens, o novo treinador do Benfica lá conseguiu dizer alguma coisa sobre o que pretende fazer futebolisticamente. Na entrevista à Benfica TV sublinhou que não ia "cortar com o passado", nem "estragar nada", mas acrescentou uma ideia diferenciadora: "vamos trabalhar para ter solução para as diversas competições" e desenvolver "alternativas táticas", que tornem o Benfica "mais versátil".


Para bom entendedor, estas palavras bastam. Jorge Jesus tem muitas qualidades como treinador, mas o Benfica dos últimos anos tinha também uma debilidade, arriscaria dizer, estrutural. Era uma equipa com um sistema de jogo quase único, com pouca versatilidade tática: ou apresentava um carrossel atacante estonteante ou sofria a bom sofrer para controlar as partidas. Não por acaso, contra equipas do seu nível, o Benfica ficou aquém das suas possibilidades (na Champions, mas, também, nos jogos com os principais rivais).

Se Vitória conseguir manter-se fiel a um modelo de jogo de clube grande, atacante e de posse, mas for capaz de acrescentar uma versatilidade tática que Jesus, de facto, nunca imprimiu, concretizará o que prometeu. Continuará o trabalho feito até aqui, mas juntará uma dimensão que faltou nos últimos anos. Versatilidade é a palavra-chave para continuar o percurso ganhador já iniciado.

publicado no Record de terça-feira

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Virar a página?


Jesus é um óptimo treinador e foi um funcionário que prestou grandes serviços ao Benfica. Com ele, o Glorioso voltou a ser um clube ganhador com uma ideia de jogo coerente com os desafios do campeonato. Na minha visão do Benfica, no momento em que Jesus terminou o seu vínculo, seria esta a mensagem que deveria ter sido repetida. Independentemente do clube pelo qual assinou.

E aqui começam os equívocos da situação em que o Benfica se encontra.

Se a direção pensava que era altura de virar a página e traçar um novo rumo, devia ter tomado as decisões planeadas e contratar Rui Vitória. Ora parece que o que está a influenciar a escolha do treinador não é uma indefinição estratégica, mas o facto de Jesus ter saído para o Sporting. Um clube como o Benfica não se deixa condicionar pelas opções dos outros clubes. É um erro que, aliás, nos pode fazer recuar a um período em que estávamos mais preocupados com o que os nossos rivais faziam do que em organizar autonomamente uma estrutura vencedora.


Depois a sempiterna aposta na formação. Há, a este propósito, um outro equívoco. Nos últimos anos, o Benfica formou uma mão-cheia de jogadores (David Luiz, Di María, Matic, Markovic, André Gomes) que chegaram com pouco cartel e saíram valorizados. Será que, com a exceção de Bernardo Silva, houve algum jovem talento subaproveitado?

A questão não é saber se se vai apostar na formação, mas, sim, que ideia de jogo um novo treinador pode trazer. Virar de página implica continuarmos a ser capazes de exibir o carrossel atacante nos jogos em casa e, ao mesmo tempo, termos um sistema alternativo que permita controlar um jogo em posse organizada (a principal insuficiência de Jesus).

Contratar um novo treinador devia depender mais de uma opção em torno do modelo de jogo desejável e menos do que fazem os nossos rivais ou do papel que os jovens talentos devem ter.

publicado no Record de terça-feira.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Maxi, renova


Tem sido sublinhado que o sucesso do Benfica se deve à combinação da liderança de Luís Filipe Vieira com a competência de Jorge Jesus. A afirmação é verdadeira, mas esquece o papel crucial dos capitães de equipa. Sem o Luisão e o Maxi, o Benfica não seria o clube vencedor que é de novo.

O Luisão e o Maxi são grandes jogadores, mas o que os distingue não é a mais-valia técnica. A importância dos capitães mede-se pela capacidade de liderança, dentro e fora do campo, e por um passado de vitórias e de derrotas que lhes confere uma experiência acumulada que se faz sentir nos momentos decisivos. Não por acaso, o Benfica voltou a ganhar quando passou a ter referências no balneário, que se foram mantendo de ano para ano, enquanto o Porto perdeu esses mesmos exemplos.

Verdade seja dita, se fosse feita uma avaliação puramente individual, não faria muito sentido manter Luisão e Maxi no plantel. São jogadores acima dos 30, com salários elevados e que terão prestações piores nos próximos anos. Mais, jogando ambos do lado direito da defesa, a sua coexistência pode antecipar problemas. Afinal, nenhum será capaz de compensar a perda de velocidade do outro.

Acontece que o futebol é um jogo de equipa, onde talento e disponibilidade física individuais são apenas uma das várias variáveis relevantes. O que o Luisão e o Maxi não têm hoje compensam com atributos de valor incalculável.


Num momento em que o Benfica vai apostar na formação, a renovação de Maxi é ainda mais imperiosa. O sucesso do Gonçalo Guedes, do Renato Sanches, do Nuno Santos ou do Jonathan vai depender de terem quem compense a sua inexperiência e impetuosidade juvenil. Ora, no futuro próximo, o Maxi pode ser um digno sucessor do Luisão. E, como sabemos da experiência com o Luisão, considerando o que nosso capitão oferece ao Benfica, dentro e fora de campo, o seu salário até é baixo.
publicado no Record de terça-feira

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Jesus, fica


"Com ele passei a ter uma visão geral do futebol. Com os outros, treinávamos o ataque, a defesa, mas não havia essa ideia de conjunto. Todos os jogadores deviam ter a oportunidade de treinar com um treinador assim." Cito de cor, mas julgo estar a ser fiel às palavras de Jonas a propósito de Jorge Jesus, aos microfones da TSF, no final do Benfica-Marítimo. Jonas, esse mesmo, que, quando parecia ter chegado ao ocaso da sua carreira, redescobriu o prazer pelo futebol e ajudou a decidir o título.

Notem bem, foi Jonas que o disse, mas poderia ter sido qualquer outro jogador - e nem precisava de ter nome de profeta. Há, aliás, uma estranha unanimidade: tenham jogado muito, pouco ou até quase nada, pouco importa, todos os jogadores que passaram pelas mãos de Jesus elogiam a sua visão singular sobre o futebol.

Podia, é um facto, não passar de um treinador com capacidade de inovação, mas Jesus traduz a sua ideia de jogo em resultados e, não menos importante, em espetacularidade. Tem, é claro, defeitos (à cabeça a teimosia e a dificuldade em montar uma equipa também capaz de controlar o jogo com bola), contudo, no Benfica dos últimos tempos, há um antes e depois de Jesus.

A equipa hoje tem uma ideia de jogo, uma organização coletiva com poucos paralelos e uma identidade de tal forma robusta que vão mudando os jogadores e, com auxílio de dois pares de líderes no balneário, a diferença quase não se sente, mesmo quando joga o "Manel". Nos últimos seis anos, o Benfica só se encontrou em duas situações: vencer títulos ou disputá-los até ao fim.


Com Jesus como treinador, o Benfica arrisca-se a continuar a ganhar. Sabemos nós, benfiquistas, e sabem-no também adeptos e dirigentes dos nossos rivais. Para que Porto e Sporting vençam o Benfica, já não basta terem jogadores talentosos, precisam, também, de apresentar uma enorme solidez coletiva. O suplemento que Jesus oferece ao Benfica.













publicado no Record de terça-feira