"I hope the fences we mended
Fall down beneath their own weight"

John Darnielle

padaoesilva@gmail.com

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

A alegria do povo




Desde sábado que ando com uma sensação estranha: tenho a impressão de que, para onde quer que me vire, me arrisco a ver o Guedes e o Nelsinho a passarem por mim a correr, imparáveis, a alta velocidade. Digo-o agora em público sem reserva, pois, em privado, já partilhei a sensação com um par de amigos que me confidenciaram sentir o mesmo.

Não sou o único, mas isso não me impede de saber que o primeiro passo para ultrapassarmos um estado de perturbação psicológica é reconhecer que alguma coisa está errada. Tenho feito um esforço nesse sentido e consultei os melhores especialistas. O António Tadeia diagnostica a facilidade do Benfica em "meter as mudanças de velocidade à entrada dos últimos 30 metros". O Pedro Bouças, que dá consultas ao grande público no Lateral Esquerdo, afiança que o segredo do Guedes está na mobilidade em aceleração que garante opções de passe e nos desequilíbrios em condução. Já o Nelsinho é um caso à parte de critério e dinâmica: notável na forma como vai superando situações de inferioridade em espaços curtos. Até o Carlos Daniel, pese embora o seu espírito hipercrítico, me confidenciou: vejo muita evolução. Os dois mais competentes, o Nelsinho a defender melhor e a temporizar com propósito e o Guedes muito bem por dentro, com espaço para explodir e cada vez melhor na decisão.

Pois eu, que sempre que o tema é o Benfica sou estruturalmente dado a devaneios pueris, limito-me a constatar o óbvio: temos de aproveitar os poucos meses em que o Guedes e o Nelsinho vão estar por cá, vestidos com as camisolas berrantes, a encher-nos de alegria.

publicado no Record de 22 de novembro

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Todos os homens



You thought that it could never happen
to all the people that you became,
your body lost in legend, the beast so very tame.
But here, right here,
between the birthmark and the stain,
between the ocean and your open vein,
between the snowman and the rain,
once again, once again,
love calls you by your name.
(...)


A voz foi ficando mais grave e trémula, enquanto adquiria ainda mais drama; o corpo foi-se curvando, mantendo elegância, e aproximando-se da imagem do “pequeno judeu que escreveu a Bíblia”. Mas, em Leonard Cohen, o tempo nunca fez sentido. Cohen nunca foi um homem da sua época, nem de nenhuma época. Na verdade, nunca foi jovem. Nasceu já com uma maturidade absoluta, vestido com um fato de corte impecável e chegou ao mundo da música tarde (para conquistar todas as mulheres?), quando já havia ganho reconhecimento como poeta e escritor. Se bem que se tenha aproximado dos movimentos folk e da poesia beat, dificilmente se pode dizer que pertencia a um grupo ou fazia parte de uma tendência.
Mas se o tempo não ajuda a compreender o legado de Cohen, a sua biografia ajuda a revelar a sua obra. O órfão que se torna aos nove anos o único homem de uma casa de mulheres; o judeu oriundo de uma das famílias mais influentes da comunidade judaica do Canadá; o pré-adolescente que aprende hipnotismo para despir a empregada; o estudante que se envolve nos círculos intelectuais de Montreal; mas também o jovem escritor que parte em busca de sucesso literário em Nova Iorque e Londres; o músico que tem um sucesso súbito e que vive uma vida boémia, repleta de anfetaminas, álcool e muitas mulheres; para logo depois buscar o recolhimento pleno de brancura, em Hydra, nos braços de Marianne; o homem maduro, de uma religiosidade profunda, que se recolhe num mosteiro budista, levando um quotidiano de um ascetismo radical, mas que nunca abandonou o judaísmo; o amante convicto de um rol infindável de musas; o Pai dedicado de Adam e Lorca. Cohen foi todos os homens e esteve em todas as suas canções.
É certo que entre os 14 álbuns que lançou há elementos de mudança. Ao princípio, a voz era menos espessa e a guitarra bem mais presente (que conta a lenda aprendeu a dedilhar com um espanhol radicado no Canadá, amante de Lorca, e que se suicidou após algumas lições com o jovem Leonard), depois da trilogia inicial, o ambiente foi ficando mais denso (com Songs of Love and Hate), para mais tarde enveredar por uma “parede de som”, numa trip alucinada, em colaboração com Phil Spector (Death of a Ladies Man). Na passagem dos anos 70 para os 80, perdeu algum fulgor e reconhecimento público (Various Positions começou por não ter distribuição nos EUA) para começar uma nova fase a partir de I’m Your Man, de voz mais grave e acompanhado pelos teclados roufenhos e de gosto duvidoso que se tornariam imagem de marca. Pelo caminho, a compilação de reinterpretações, I’m Your Fan, primeiro, e um desfalque financeiro, depois, que o devolveu às tournées e tornou possível uma notável trilogia final (Old Ideas; Popular Problems e You Want It Darker), deram-lhe o reconhecimento de um público mais alargado.
Há, contudo, no essencial, elementos de continuidade entre Songs of Leonard Cohen e o recente You Want It Darker. A toada melancólica e um horizonte sombrio, as melodias envolventes, variações incessantes do mesmo canto lento, mas, acima de tudo, temáticas persistentes: a tentativa de lidar com a beleza absoluta através da palavra (o que é próprio dos “oprimidos pelas figuras de beleza”), o confronto com o juízo final (I'm ready, my lord”, canta a abrir You Want it Darker), um ensimesmamento reflexivo que coexiste com uma sexualidade exuberante e uma celebração do amor, transformada em nostalgia sobre as paixões passadas. Sobre tudo pairou sempre um espectro apocalíptico (“I’ve seen the future and it’s murder”), só superável pelo diálogo com Deus. Cohen pareceu sempre ter sido deixado sem escolha – para além de conferir um sentido ao amor, à sexualidade e à religiosidade através do “dom de uma voz dourada”. Stranger Song, tema marcante do álbum de estreia, sugere o mesmo descontentamento e busca de redenção (“It's true that all the men you knew were dealers/who said they were through with dealing/Every time you gave them shelter”) que Treaty, canção que, sintomaticamente, encerra o derradeiro disco (We sold ourselves for love but now we're free/I'm sorry for the ghost I made you be/Only one of us was real and that was me”). Nos dois casos, a paixão é um alimento para a insatisfação do espírito.

É conhecida a conversa entre Dylan e Cohen, onde o agora prémio Nobel terá dito, com convicção: “Leonard, tu és o número 1; mas eu sou o número zero”. Talvez seja uma forma de descrever a diferença. Dylan é um fenómeno cultural, um reinventor incessante do cânone. Cohen é a versão mais perfeita do cânone. A forma superior como ligou poesia com música foi seguida por muitos, mas está longe de ter sido alcançada.



Com a mentira m'enganas

Desde George Orwell que sabemos que quem controla o passado, controla o futuro e quem controla o presente, controla o passado. É assim que deve ser entendida a tentativa de Bruno de Carvalho de reescrever a história dos títulos de campeão nacional. Não fora a iniciativa tão tosca e desconforme com os factos, Bruno de Carvalho arriscava-se mesmo a ser o presidente do Sporting a conquistar mais títulos num só mandato – para já, quatro campeonatos em três anos. Seria obra, não fora ser na secretaria.

Regressemos ao estimulante exercício de revisionismo. O argumento do presidente do Sporting parte do pressuposto de que o Campeonato de Portugal disputado até 1938, por eliminatórias, corresponde ao Campeonato Nacional. Podia fazer sentido, não fora a hipótese não ser acompanhada por ninguém, nem sequer pelo autor do ‘Almanaque do Leão’, Rui Miguel Tovar. Aliás, a própria Federação, aquando da alteração das competições, logo em 1938, teve o cuidado de consagrar a doutrina, para memória futura, "Por virtude da reforma a que se procedeu no Estatuto e Regulamentos da Federação, os Campeonatos das Ligas e de Portugal passaram a designar-se, respetivamente, Campeonatos Nacionais e Taça de Portugal".

Talvez a explicação para este ímpeto de conquistas esteja na história recente: desde que Bruno de Carvalho foi eleito, há uma regularidade estatística – o Benfica sagrou-se sempre campeão. Não sei se há correlação entre os dois eventos, em todo o caso, tendo em conta que o presidente do Sporting se alimenta a antibenfiquismo, talvez o assunto o preocupe.

publicado no Record de 14 de novembro

Bafejados pela sorte?

No domingo, nem o Porto foi tão superior como se quis fazer crer, nem o Benfica tão afortunado como sugere um empate alcançado nos descontos. Olhemos para os números: vantagem do Porto nos remates (17/12) e nos remates enquadrados (8/2), mas, em todos os outros indicadores, houve grande proximidade entre as equipas. Equilíbrio total na posse de bola, ligeira vantagem nas oportunidades de golo criadas para o Porto (13/11) e na eficácia do passe (81%/77%). Apesar de tudo, o Benfica venceu mais duelos (54/51) e teve mais cantos a favor (9/6).
Claro está que os números não dizem tudo e para quem viu o jogo não sobram dúvidas: Nuno Espírito Santo preparou melhor a estratégia com que abordou a partida e remeteu o Benfica para uma toada defensiva, que Rui Vitória devia ter contrariado bem antes de sofrer o golo. Mais, ficou a sensação de que, em partidas a doer e com muitas baixas, o Benfica deixa de poder depender tanto do talento individual e pressente-se alguma falta de critério coletivo. Continua aí a principal debilidade estrutural deste Benfica.
Mas enquanto Rui Vitória foi superior na forma como mexeu na equipa, Espírito Santo deu demasiados sinais defensivos nas substituições, oferecendo ao Benfica um controlo do meio-campo que tinha perdido completamente na primeira parte.
No fim, o empate e a confirmação de que a sorte desempenha um papel importante no futebol: não fora a rosca de Herrera e a falha de marcação do Porto num canto aos 92 minutos, estaríamos a falar de uma partida diferente. Contudo, por paradoxal que possa parecer, nem sequer a sorte é fruto do acaso.
publicado no Record de 7 de Novembro


quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Contra o entusiasmo


Há um ano, por esta altura, o Benfica era uma equipa destroçada. Sem fio de jogo, a viver uma transição traumática de treinadores e a acumular maus resultados. Antes da deslocação a Braga, a questão que se colocava era se fazia sentido começar a preparar a nova temporada, mudando de treinador e lançando novos jogadores ou, pelo contrário, teimar numa aposta que parecia falhada. Entretanto, o Sporting liderava o campeonato com uma vantagem que era sensivelmente a mesma que o Benfica tem agora. Sabemos bem como terminou o campeonato.
E sabemos também que pequenos fatores fizeram uma grande diferença: a entrada de Renato na equipa, que ligou os setores e conferiu dinâmica ao futebol do Benfica, e uma dupla atacante (Jonas e Mitroglou) que começou a marcar golos em catadupa. Claro está que, não fora o excesso de confiança demonstrado pelo Sporting, a vantagem amealhada pelos de Alvalade não teria sido delapidada.
É essa a principal lição que o Benfica agora deve recordar. Não há lideranças confortáveis e nem os adversários são tão frágeis como sugerem os resultados deste fim-de-semana, nem futebolisticamente o Benfica é tão superior como indicia a tabela classificativa. O Porto, por estar liberto da tensão entre Benfica e Sporting, tem a vantagem de correr por fora e tem este ano mais soluções em posições chave; já o Sporting tem um excelente treinador, com um plantel desenhado à sua medida e que é bem mais completo do que o do ano passado. É por isso que, agora, contrariar o entusiasmo natural que se sente na família benfiquista é tão importante como ultrapassar as fragilidades futebolísticas que ainda existem.


publicado no Record de 1 de novembro

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Saiu quem?

A certa altura do play-off deste domingo, com a sagacidade que o caracteriza, Augusto Inácio questionava repetidamente, “saiu quem do Benfica?”. A pergunta, está visto, visava demonstrar que o Sporting tinha sido particularmente afetado no defeso, com a perda de João Mário e de Slimani. É um facto. Mas talvez valha a pena ajudar o ex-diretor de relações internacionais do Sporting.
Dos cinco jogadores mais importantes da equipa que venceu o tricampeonato, o Benfica perdeu Gaitán e Renato Sanches e Jonas e Jardel ainda não jogaram, envolvidos que estão nessa praga clínica de proporções bíblicas que afeta o Seixal. Se juntarmos as lesões à vez de Ederson e Júlio César e os escassos 70 minutos de Rafa (o reforço mais sonante), de facto, é caso para dizer que, tirando estes, ninguém saiu do Benfica. No fim, o jogador mais propenso a lesões, Fejsa, é o único sobrevivente do cinco que liderou o Benfica rumo ao 35.
São, na verdade, muitas “saídas”. E se somarmos a saída do cérebro há um ano e o facto de termos uma equipa à deriva, que, é-nos dito, nem sequer treinador tem, a dinâmica de vitória do Benfica é miraculosa.
Ou talvez não. Apesar de tantas saídas, há explicações para o Benfica continuar a vencer. É que “saem” jogadores, mas há coisas que se mantêm: o compromisso competitivo; a intensidade com que se encaram os jogos; a concentração exclusivamente no próprio grupo; a humildade com que se enfrenta os adversários. Tudo qualidades mais difíceis de garantir do que uma mão-cheia de reforços comprados com pouco critério.


publicado no Record de terça-feira 

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Um Nobel dylanesco



Há uma estranheza evidente na atribuição do Nobel da literatura a Bob Dylan, mas há também algo de natural na escolha da Academia.
Dylan é um autor e acima de tudo, na definição exata de Leonard Cohen, “o Picasso da canção”. Alguém que, primeiro, alinhou com o cânone para o levar mais longe (o legado de Woody Guthrie), para logo depois reinventar o lugar da canção de protesto, ao ponto de, por vezes, já nem ser canção e ter deixado definitivamente de ser de protesto. Sem Dylan não haveria Springsteen, não escutaríamos da mesma forma Townes Van Zandt e a reinvenção alt-country e folk de Bonnie Prince Billy aos Wilco seria inviável. Da mesma forma que a canção como veículo primordial para a palavra, nos Mountain Goats de John Darnielle, seria uma impossibilidade. Dylan não criou tudo, mas abriu as portas para quase tudo o que se seguiu e para o que o tem acompanhado.
Dylan é um inovador radical e a sua música provoca um certo desconforto, o medo que pressentimos de um “som estrangeiro”. Mas ser um cantor disruptivo e inovador, por si só, não faz dele um escritor. Contudo, se acreditarmos que a força da literatura reside na capacidade de criar uma voz singular, dissonante e desafiante, Dylan tem na sua lírica uma obra literária com poucos paralelos.
Se nos ficarmos pelos cantores, é certo que Cohen – companheiro de percurso mais próximo do que se crê – tem uma obra mais vasta e mais próxima da literatura como a entendemos. Ao contrário do canadiano, o “bardo do Minnesota” nunca foi romancista popular e a sua poesia não é anterior, nem existe para além das canções. Se bem que “Chronicles, vol. 1” seja, mais do que autobiografia, uma reflexão muito interessante sobre o seu percurso, em Dylan a palavra é inseparável da música e uma está amarrada à outra. Contudo, Dylan tem, a seu favor, a criação de um universo e, com ele, de um adjetivo, “dylanesco”.
O traço artístico mais sublinhado em Dylan é a sua natureza camaleónica. Mudou muito, reinventou-se e, enquanto se reinventava, mudou a música, provocando estranheza e desconfiança no seu próprio público: o Judas que pegou na guitarra elétrica para revolucionar a folk, abandonar a canção de protesto e desfazer qualquer ilusão de que era o porta-voz de uma geração; o filho dileto de Nashville que, entre vénias a Cash, devolveu legitimidade cultural à country; ou o crooner sentimental que destilou o “Great American Songbook” a níveis de limpidez de surpreendente grandiloquência ou até o cantor que, numa paradoxal viragem do destino, se enredou em sermões evangélicos. Scorsese fixou esse Dylan múltiplo, que ninguém conhece na sua plenitude, amarrado a uma errância criativa, no notável “No Direction Home”.
Mas o Dylan que vence o Nobel pode bem ser outro. O Dylan que tem uma lírica dylanesca. Uma poesia que não resulta de um exercício racional, mas, pelo contrário, de um impulso criativo de sentido ambíguo e que é inseparável da música. Uma poesia que pode ser lida e interpretada de todos os ângulos, sem que nenhum se sobreponha. Uma voz rebelde e desconcertante que não está amarrada nem ao seu eu singular nem, muito menos, ao contexto circunstancial da sua época. Uma voz intensa que tem uma poética indeterminada, a um tempo poesia de intervenção política e espelho do seu tempo social, a outro, lírica amorosa, a resvalar para o sentimentalismo. Bob Dylan é todas as vozes, mas não foi apenas todas as vozes ao longo da sua carreira ou quando escutamos os seus discos.
A sua grandeza enquanto escritor está na forma como, de forma concisa, consegue captar, num mesmo poema e numa curta canção, visões variadas, contraditórias e um eu múltiplo, sem nunca deslindar exatamente o sentido último da mensagem. Até porque, muito provavelmente, aliás, o sentido último se perdeu, nunca existiu enquanto construção racional ou a responsabilidade de o traduzir é de quem escuta as canções e ouve as palavras. Se a literatura for apenas uma tentativa falhada de busca da verdade, é bem provável que se encontre mais verdade e universalidade na ambiguidade dylanesca do que em muitos outros autores, bem mais canónicos e percepcionados como escritores.



publicado no Expresso diário de 13 de outubro