"I hope the fences we mended
Fall down beneath their own weight"

John Darnielle

padaoesilva@gmail.com

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Completamente Diferente



Sabemos bem onde estávamos no verão passado, quando o planeamento da temporada parecia um equívoco e a equipa teimava em não ter uma ideia de jogo. Mas, também não me esqueço de que, logo no primeiro jogo em casa, Rui Vitória lembrava que sabia o que era ser adepto, pois vinha ao Estádio da Luz desde os 5 anos.

Bem sei que o tempo não está de feição para visões românticas do futebol, até porque se o Benfica ganha hoje (também nas modalidades) é por ter uma estrutura profissional, que substituiu o amadorismo que imperou durante anos. Mas, apesar disso, talvez seja bom recordar a diferença que faz vencer um campeonato com um grande treinador – benfiquista como nós e que não se coloca no centro do mundo –, quando comparado com vencer campeonatos com um grande treinador, que só perde com a bazófia que não consegue refrear.

Tenho memória de muitos campeonatos conquistados, mas este teve um sabor especial: porque a temporada se iniciou sob o espectro do desinvestimento; por termos ressuscitado depois de dados como mortos e enterrados; pela forma como os adeptos estiveram com a equipa e só se libertaram verdadeiramente nos festejos incontidos de domingo; acima de tudo, pelo modo como Rui Vitória soube inventar jogadores quando tudo parecia perdido, manter o grupo unido e motivado face a uma ofensiva que raiou o delirante e porque é completamente diferente ter um treinador que é um homem decente. Um critério que o deixa isolado, com todo o mérito, em primeiro. A grande distância, por exemplo, de um vendedor de pipocas.

publicado no Record de terça-feira

sexta-feira, 13 de maio de 2016

Categórico

"Se o Benfica ganhar o próximo jogo, começo a acreditar". O tweet de João Vale, no final da partida contra o Marítimo, resume com precisão o estado de espírito dos benfiquistas e é, também, a chave do sucesso. A memória do futebol desconchavado do início da época e a sucessão de maus resultados que assolaram a equipa durante muito tempo afastaram qualquer sonho de vitória. Mas, semana a semana, o Benfica foi ultrapassando todas as adversidades e deixou para trás adversário após adversário. Hoje, a conquista do tri é uma possibilidade real, à distância de uma vitória.

É a memória viva dos insucessos de início da temporada e a bazófia com que os nossos adversários nos têm brindado ao longo do campeonato que mantêm o Benfica focado apenas no seu percurso e com uma humildade que ajuda a enfrentar as dificuldades. E não têm sido poucas.

O Benfica superou todos os testes: estabilizou as opções técnicas quando a pressão para mudar era muita; teve a frieza de não responder à incontinência verbal e facebookiana dos adversários; perante ondas sucessivas de lesões, encontrou nos ‘Manéis’ da equipa B soluções à altura; recuperou de desvantagens em vários jogos; reequilibrou-se fisicamente após o desgaste da Champions; e, domingo, contra o Marítimo, realizou das melhores exibições dos últimos tempos, respondendo à pressão psicológica que envolvia a partida e, acima de tudo, mostrando confiança e um espírito de grupo notável, que permitiram (con)vencer, mesmo jogando com 10.

Custa a acreditar: contra as expectativas, o Benfica está, de forma categórica, a três pontos de ser campeão.

publicado no Record de terça-feira


quinta-feira, 5 de maio de 2016

Confiança

Na semana passada escrevi que ao Benfica, para vencer o campeonato, restava vencer as três partidas em falta. A afirmação provou ser verdadeira e, hoje, sobram duas finais por disputar. Não vale a pena contar com ajudas de terceiros. O Sporting não vai perder pontos e, caso não vença Marítimo e Nacional, fica claro que o Benfica não merecia ser campeão. Afinal, em competições longas, não há vencedores morais, pelo que quem terminar em primeiro lugar será o justo campeão nacional.E quais são, neste momento, os problemas do Benfica?

Tem sido sugerido que a equipa enfrenta algum cansaço físico, fruto de uma temporada longa e disputada em muitas frentes. Determinados jogadores caíram muito nos últimos jogos, já não revelam o vigor físico de há um mês e, ao contrário do Sporting, não entrou uma mão cheia de jogadores no mercado de inverno para a equipa titular.

Discordo. O problema do Benfica é de outra natureza. Com o aproximar do fim da época, a possibilidade de vitória tornou-se uma espécie de abismo psicológico. Nos últimos jogos a equipa sofreu não por dificuldade física, mas por ainda não se ter convencido que vai ser campeã. Faz sentido. O Benfica planeou mal a temporada, deu um avanço inacreditável aos adversários, renasceu e talvez hesite em acreditar que, agora, depende apenas de si próprio para levantar a taça. Convenhamos que este muro psicológico é bem mais fácil de derrubar do que seria um eventual cansaço físico. Aliás, é para isso que servem os adeptos: para dar um suplemento de confiança e empurrar a equipa para a vitória. Na Madeira no domingo e no fim-de-semana seguinte na Luz.

publicado no Record de terça-feira

sexta-feira, 29 de abril de 2016

Há vida para além do Benfica

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Faltam Três

A vitória contra o Rio Ave – em teoria o adversário mais difícil nestas últimas jornadas – não alterou tanto como se pode pensar a difícil caminhada do Benfica rumo ao título. Engana-se, por isso, quem pensava que este era o jogo decisivo. A deslocação a Vila do Conde era determinante apenas na medida em que em lugar de faltarem quatro vitórias, o Benfica passou a estar a três vitórias do 35.

Percebe-se a euforia dos adeptos e as celebrações dos jogadores, mas convém ter presente as tristes lições do passado. Há três anos, após uma vitória difícil na Madeira, frente ao Marítimo, o campeonato parecia reservado e tudo foi perdido num jogo em teoria fácil com o Estoril na Luz. Este ano o campeonato será disputado até à última jornada e não vale a pena alimentar ilusões. O Benfica dependerá apenas das suas vitórias para ser campeão, da mesma forma que o Sporting vencerá todos os confrontos que tem por disputar. Quando se aproximam as partidas decisivas, faz toda a diferença estar ainda em jogo alguma coisa importante. O Sporting tem tudo a perder no Dragão e o Porto nada a ganhar (a não ser uma vaga noção de honra). No sábado, Sporting e Porto estarão a disputar campeonatos diferentes. Essa pressão adicional favorece o Sporting. Pelo que o Benfica não deve ficar à espera de ajudas de terceiros.


A partir de agora, tão difícil como a preparação física e tática para os jogos que se seguem, é evitar alguma descompressão e contrariar a ideia de que o campeonato está garantido. O Benfica depende de si: para já, tem de ganhar ao Guimarães e não deve contar com um auxílio improvável do Porto.

publicado no Record

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Ser Benfiquista


Encostado ao muro, de perna fletida e sem bigode, o meu tio-avô, sobre o qual escrevi aqui. Este texto surpreendente (scroll down até 'construtor de catedrais') conta a história quase toda.

É só sorte?



A sorte é um fator claramente sobrevalorizado no caminho para o sucesso e, contas feitas, no fim, nem sequer protege os audazes. O Benfica, ontem, teve uma vitória sofrida frente ao Vitória e, se pensarmos na defesa final de Ederson, podemos mesmo dizer que foi bafejado pela sorte. Mas a verdade é que a sorte procura-se e, esta temporada, o Benfica não tem feito outra coisa.

É mais um daqueles casos em que os números não enganam e um bom indicador para avaliar o papel da sorte no futebol são os jogos que são decididos pela margem mínima. Nestes casos, sim, uma bola da equipa adversária que não entrou mas poderia ter entrado é capaz de ter feito a diferença.

Em trinta jornadas, o Benfica venceu sete jogos pela margem mínima; já o Sporting – o clube que, de acordo com Jorge Jesus, "tem ganho de forma convincente, enquanto os adversários têm ganho com sorte" – leva onze vitórias por um golo de diferença. Se acrescentarmos que muitos destes resultados foram alcançados no último minuto ou já nos descontos, estamos falados quanto a sorte.

Da mesma forma que é justo reconhecer que, aquando do início da temporada, o Benfica perdeu vários jogos e não foi por azar, também se deve reconhecer que a notável recuperação iniciada com a vitória fora em Braga (lá está, por 2-0) é fruto do trabalho que permitiu formar uma equipa coesa e com sentido coletivo. E, já agora, uma equipa que é espelho de um treinador que demonstra elevação e respeito pelo trabalho dos adversários.

publicado no Record na terça-feira

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Cinco Jogos


O rol de resultados do Porto nas várias modalidades, nas duas últimas semanas, não deve ter paralelos nas últimas décadas. Três derrotas consecutivas com o Benfica no andebol (modalidade em que o Glorioso não conquistava um título há quatro anos); eliminação das competições europeias pela Oliveirense no hóquei; derrota com o Galitos e depois com a Ovarense no basquetebol; culminando com a dupla jornada negra no futebol, frente ao Tondela e Paços de Ferreira.

Uma sequência de resultados assim não pode ser fortuita ou fruto do azar – uma bola que não entrou e podia ter entrado –, nem sequer atribuída a erros de arbitragem. Quando os exemplos são demasiados e contrastam com a senda vitoriosa do passado, as explicações têm de ser outras e só podem ter causas estruturais. De igual forma que a dinâmica de vitória do Benfica, que vai acumulando resultados positivos e conquista títulos em todas as modalidades, parafraseando Luís Filipe Vieira depois do jogo de Munique, "não pode ter nascido por acaso".

Não se pense, contudo, que verto lágrimas de crocodilo pelo Porto de Pinto da Costa. Penso mesmo que o que se está a passar é um caso de justiça poética (ou até dourada!). A questão é outra.

Há, neste momento, uma grande expectativa entre os benfiquistas: o Sporting perderá pontos no dragão e o título ficará à nossa mercê. Temo que não seja assim. O mais provável, hoje, é que o Porto perca tudo o que tem a perder. Com consequências. Para alcançar o 35, o Benfica depende apenas de si e tem cinco jogos para vencer.

publicado no Record