"I hope the fences we mended
Fall down beneath their own weight"

John Darnielle

padaoesilva@gmail.com

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Queixas dos árbitros

O campeonato terminou e, pelo que se ouve, o Benfica é campeão levado ao colo pelas arbitragens. Olhemos então para os números.
O Benfica foi a equipa que mais golos marcou (72 contra 71 do Porto e 68 do Sporting) e a que menos sofreu (18, curiosamente metade dos 36 do Sporting e menos um do que o Porto). Ao maior caudal ofensivo deveria corresponder mais grandes penalidades favoráveis e até, por a equipa provocar mais problemas às defesas, mais adversários admoestados. Estranhamente, não foi o que aconteceu. O Benfica beneficiou de sete penalidades, para nove do Porto e 13 do Sporting. Com uma nota adicional, o Benfica teve apenas duas penalidades com o jogo empatado, que compara com sete do Porto e oito do Sporting. Já quanto a expulsões, o Porto lidera destacado a tabela dos beneficiados: nove adversários expulsos (284 minutos em superioridade numérica, contrastando com os 100 do Sporting e um singelo minuto para o Benfica).
Se fizermos uma análise mais fina, cingindo-nos apenas aos jogos em que o Benfica perdeu pontos, notaremos que em todos houve erros de julgamento. Também o Benfica pode afirmar: não fora os árbitros, teríamos sido campeões mais cedo.
Moral da história: todos têm razões de queixa das arbitragens (é da natureza do jogo) e o mérito está, também, na forma como se supera os erros arbitrais. No fim, o campeão tende a ser o clube com mais qualidade individual e que foi mais estável emocional e taticamente. Como benfiquista, espero, por isso, que Porto e Sporting continuem a justificar as suas prestações com o que os árbitros fazem e não com a forma como jogam. Afastam-se das vitórias e aproximam-nos dos triunfos.
publicado no Record de 23 de maio

segunda-feira, 22 de maio de 2017

A Vespa do Tetra



"De onde é que surgiu esta ideia?", questionava o repórter da BTV em direto do balneário, enquanto uma improvável Vespa surgia conduzida pelo Eliseu. Na resposta, o André Almeida dizia, "foi no momento, a nossa equipa é boa no improviso". Não só não pode ter sido ideia do momento como nada dá tanto trabalho a preparar como um bom improviso. E talvez esteja aí o segredo da conquista de mais este campeonato.
O Benfica de hoje não é dado ao improviso. É uma organização com estabilidade na gestão, que combina adaptação às mudanças do futebol com preservação da identidade fundadora do clube. Nisso, é uma Vespa: vetusta mas capaz de resistir à passagem do tempo; objeto de culto mas competitiva num mercado aberto, em velocidade de cruzeiro mas recompensadora no fim e, acima de tudo, geradora de paixões. Não há ninguém que não reconheça uma Vespa e não há ninguém que não gostasse de um dia ter uma.
Como uma Vespa, o Benfica preserva a sua inclinação popular e combina-a com sonhos realistas de grandeza. É esta a nossa identidade e a nossa aspiração. 
O papel simbólico da Vespa do tetra não termina aqui. Como se pode provar pelas celebrações, mas foi visível toda a temporada, o Benfica é, de facto, uma equipa – unida nos momentos de dificuldade, capaz de mostrar maturidade competitiva onde outros claudicam. Uma equipa para a qual todos contribuem: os titulares e os que jogam menos tempo. Foi por isso um belo sinal, no dia da celebração, ter o Eliseu a conduzir a Vespa do tetra num balneário com uma alegria incontida.
publicado no Record de 16 de Maio

Liga Salazar?

Na sequência do meu artigo da semana passada, onde me indignava com a associação torpe do Benfica ao antigo regime, o Dragões Diário deu-me honras de abertura. Fico lisonjeado e espero que continuem a justificar os maus resultados desportivos do mesmo modo – estão condenados a continuar a perder. Para além de montagens fotográficas que me colocam lado a lado com um ditador sinistro – o que diz muito da gente que faz a comunicação do Porto –, sublinho que o longo texto se limita a tentar identificar as fontes do meu artigo, não refutando rigorosamente nada do que escrevi. Sim, não inventei os factos em que me baseio, mas esqueceram-se de citar o notável trabalho de Alberto Miguéns no 'Em Defesa do Benfica'.
O fundamental é que esta conversa da Liga Salazar não é um argumento repetido no submundo das redes sociais. É parte da comunicação oficial do clube. Ou seja, para o Porto já não estamos perante erros de arbitragem, mas, pelo contrário, perante uma Liga que é moralmente corrupta e que está estruturalmente destruída. A comparação com uma ditadura abjeta assim o sugere. 
Imaginemos que os Lakers classificavam a NBA como Liga KKK ou que o Dortmund renomeava a Bundesliga como Liga Honecker ou o Milan apelidava o campeonato italiano de Liga Mussolini. Estou certo de que as instâncias que regem as competições teriam mão pesada. Por cá, banaliza-se tudo, até as comparações com um ditador. Só isso pode explicar o silêncio de Presidente da Liga face a uma acusação que ultrapassa todas as que foram feitas sobre o futebol português e que é particularmente aviltante para o próprio. Vai Pedro Proença ficar à espera que o Porto lhe chame Américo Tomaz?
publicado no Record de 8 de Maio

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Campeão da Democracia



         (um grupo de jovens garbosos, ainda com as gloriosas camisolas do Sport Lisboa. Encostado ao muro - sem bigode -, um tal de Marcial Freitas e Costa, meu tio-avô)

         A “Liga Salazar” é o último exemplo de uma campanha insidiosa que tenta ligar o Glorioso ao Estado Novo e que é insultuosa para muitos que edificaram um clube eclético, plural e democrático. Vale a pena rememorar os que se fazem esquecidos e esclarecer os ignorantes.
         O Benfica nasceu da vontade de um grupo de rapazes lisboetas de origem popular, com poucos recursos. Esse código genético contrastante deixou marcas: enquanto tivemos vários presidentes de meios oposicionistas (Félix Bermudes, Manuel Conceição Afonso, Ribeiro da Costa ou Borges Coutinho), os nossos rivais eram presididos por figuras do regime fascista (Urgel Horta e Ângelo César no Porto; Casal Ribeiro e Góis Mota no Sporting, para referir apenas alguns). Não por acaso, após o golpe militar, o Sporting mudava o nome do Estádio para 28 de Maio, para mais tarde inaugurar Alvalade a 10 de Junho, e o Porto inaugurava as Antas no âmbito das comemorações do 28 de Maio; o Benfica, quando se transferiu para a antiga estância, recuperou o nome Campo Grande e fez questão de inaugurá-lo a 5 de Outubro. Mais tarde, a velha Luz abriria a 1 de dezembro, apenas porque não ficara pronta a 5 de outubro. Quem conheça um pouco de história não terá dúvidas quanto ao simbolismo das datas. Sintomaticamente, só em 1971 a Luz albergaria um jogo da seleção nacional. 
         Foi também o Benfica que viu o seu hino - Avante p’lo Benfica,  da autoria de Félix Bermudes - proibido pela censura, numa altura em que os jogadores deixaram de ser vermelhos e passaram a encarnados. Durante a noite negra do fascismo, enquanto os sócios benfiquistas elegiam o Presidente em eleições diretas, que enchiam a saudosa sede da Rua Jardim do Regedor, com filas de gente que chegavam até aos Restauradores, no Porto e no Sporting as direções eram escolhidas por conselhos de ex-dirigentes e notáveis.
         Uma coisa é clara: o Benfica foi o campeão da democracia durante o Estado Novo. Continuamos fieis a esse espírito, sem culto de Presidentes nem revisionismos do número de títulos ou data de fundação.


         Versão mais longa de um artigo publicado no Record de 2 de Maio de 2017

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Qualquer Dia

Numa profecia condenada a autorealizar-se, muitos avisaram: "qualquer dia morre alguém por causa do ambiente em redor do futebol". Esse dia chegou (de novo) neste fim-de-semana.

Parte da explicação para o que se passou às portas de um Sporting-Benfica passa pela onda de violência verbal que hoje envolve o futebol, e que tem na mediatização imparável um rastilho relevante. Mas é abusivo estabelecer algum tipo de causalidade entre incontinência verbal e a morte de um adepto.

Um pouco por toda a parte, o futebol tornou-se o último reduto da pertença identitária e espaço para sentimentos excessivos, por definição irracionais. Precisamos disso, mas das paixões exacerbadas à violência o caminho é curto. Pelo que convém que as estradas estejam bem reguladas. Não estão.

É intolerável que dirigentes se entretenham a desculpabilizar os adeptos ultra dos seus clubes, porque os dos outros são piores. Não são. O que não impede de reconhecer que há níveis distintos de responsabilidade: não é a mesma coisa um presidente que se comporta como membro de uma claque e um presidente que finge que as claques podem estar fora da alçada do clube. Do mesmo modo que, como mostram exemplos de países que lidaram com a violência no futebol, é possível erradicar quase totalmente o fenómeno (por exemplo, irradiando adeptos dos estádios, sem complacência).

O que não é possível é um país ter no futebol uma indústria de sucesso, enquanto a imagem do desporto se degrada de forma inadmissível. O meu pedido como adepto incondicional é simples: aos dirigentes que ganhem juízo, às autoridades que tenham mão pesada com os prevaricadores. 

publicado no Record de 25 de Abril

Onde está a pressão?

A cinco jornadas do fim, as equipas já não alterarão a sua forma de jogar, nem corrigirão as suas insuficiências. As cartas estão lançadas: Benfica e FC Porto são, aliás, duas formações com uma ideia de jogo diferente, mas que se equivalem. O equilíbrio não quer dizer que o campeonato se vá decidir nas estratégias comunicacionais ou, como insiste o FC Porto, nas decisões das arbitragens. O campeão será escolhido dentro do campo, como tem acontecido nos últimos anos.

Com quinze pontos em disputa, a equipa que lidar melhor com a pressão será campeã. E os fatores a pressionarem o Benfica não são os mesmos que pressionam o FC Porto. Enquanto o Benfica está pressionado pela conquista de um tetra que seria inédito e por um abismo da vitória que persegue quem lidera competições durante muitas jornadas; o FC Porto encontra-se assolado por uma seca de títulos sem paralelos na história recente e, não menos relevante, pelo espetro de um investimento financeiro que se poderá tornar insustentável caso não regressem as vitórias. Até ver, o FC Porto revelou ansiedade nos momentos decisivos, claudicando quando esteve ao seu alcance assumir a liderança.

Por fora, corre um Sporting que passou a vencer quando deixou de estar pressionado. Alheado da disputa pelo título, o Sporting tornou-se uma equipa mais forte e que será determinante na escolha do campeão. É por isso também um Sporting mais perigoso aquele que o Benfica vai enfrentar no sábado. A menos que, como sempre acontece com os de Alvalade, o dérbi seja encarado com uma pressão adicional por ser o jogo que pode salvar a época.

publicado no Record de 17 de Abril

Um jogo horrível


É difícil imaginar uma exibição menos conseguida e um jogo pior do que o do Benfica em Moreira de Cónegos. Uma abordagem estratégica errada juntou-se a uma manifesta incapacidade para controlar a partida e, ainda, a um descontrolo emocional preocupante.
Pela primeira vez esta temporada, o Benfica teve sérios problemas face a uma equipa a defender com um bloco muito baixo. Até aqui, as maiores dificuldades do Benfica têm sido face a equipas que pressionam alto. Não foi o caso. Com recursos limitados, o Moreirense recuou e o Benfica foi incapaz de criar jogadas, quanto mais oportunidades de golo. Neste contexto, as trocas entre Jonas e Rafa, com aquele a cair na esquerda, são difíceis de compreender, pois limitaram-se a afastar o brasileiro de zona de finalização (fez algum remate?).
E que dizer da forma como, mesmo em vantagem, a equipa foi incapaz de controlar o meio-campo e, pior, se revelou desastrada nas saídas para o contragolpe? Sempre em inferioridade nas bolas divididas, à maior posse de bola nunca correspondeu um domínio do jogo. Neste quadro, a passividade tática foi alarmante.
Finalmente, uma equipa como o Benfica, a vencer uma das sete finais que faltava disputar, não pode revelar a instabilidade emocional que aparentou, tanto mais que estava face a um adversário manifestamente inferior.

No fim, sobrou o resultado, o apoio inexcedível dos adeptos e algum otimismo estatístico. A probabilidade de se repetir um jogo assim é diminuta, até porque a equipa tenderá a aprender com uma exibição que foi paupérrima.

publicado no Record de 10 de Abril

A verdadeira cartilha

Aparentemente, tem provocado grande ruído o facto de o Benfica enviar informação circunstanciada a alguns comentadores, pasme-se, afetos ao clube. Ainda não consegui perceber qual é exatamente o problema com este facto.
A semana passada, quando confrontado com a existência de tal informação, quer no Record, onde escrevo vai para quatro anos, quer na Sport TV+, onde comento desde o início do canal, fui claro na resposta, que recupero: "Cartilha só conheço a Maternal do João de Deus e o facto de um clube enviar informação sistemática é sinal de organização e de profissionalismo". Acrescentei que escrevo aquilo que penso e digo o que me apetece e que, para mim, é muito mais importante para formar a minha opinião as conversas quotidianas que tenho com outros grandes benfiquistas, os meus amigos Bernardo Azevedo, João Tomaz e Manuel Castro.

Este ponto é fundamental porque ajuda a perceber a verdadeira cartilha que rege os benfiquistas. Uma cartilha que firma um clube que não só existe para além de qualquer direção, por natureza transitória no tempo e limitada no seu poder, como recusa qualquer tipo de culto da personalidade do Presidente, quem quer que ele seja. O Benfica de que me habituei a gostar, e que sinto como meu, é mesmo uma agremiação de inclinação popular, pluralista e com adeptos hipercríticos e de pendor pessimista face à performance desportiva. Quando no nosso estádio os cânticos forem a Presidentes ou nas bandeiras se vir a face de dirigentes, é a identidade do Benfica, clube de espírito democrático e nascido nos meios populares de Lisboa, que estará a ser afrontada. Isto custa a perceber a todos aqueles que veem os outros à sua imagem e que, por isso, não hesitam em utilizar epítetos como 'avençados'. Tudo o que devo ao Benfica, e não é pouco, é do domínio imaterial: angústias diárias e emoção incontida nas vitórias.
Quem quiser fazer o exercício, que julgo penoso, de recuperar todos os meus textos no Record, concluirá que está perante um olhar não isento sobre o futebol e o Benfica em especial (afinal sou o sócio 8001 do Glorioso), mas também perante uma visão livre. Bem sei que para o lúmpen que pulula em redor do mundo do futebol seja difícil perceber que é possível ter uma filiação clubística inegociável, vibrar com as vitórias da nossa equipa, mas manter espírito crítico sobre a forma como a equipa joga ou até sobre as opções estratégicas que o clube toma. Não há opinião neutra e muito menos comentário higienizado. Os que me leem e ouvem sabem que sou – e, posso garantir, serei sempre –, com orgulho desmedido, benfiquista.

publicado no Record de 12 de Abril

O campeonato começou


As últimas imagens são as que perduram. Para quem viu o jogo em casa, o que fica é o Porto a queimar tempo para segurar o empate e a festejar no final da partida. No estádio, na retina ficou o capitão Luisão, enquanto as bancadas esvaziavam, de braços erguidos, em sinal de vitória, e a apontar para o escudo de campeão.
Trata-se de um belo retrato do que se passou no clássico e um sinal para o que aí vem. Depois do Porto avassalador – que vinha sendo anunciado aos sete ventos – não ter estado presente na Luz, do Benfica ter dominado a partida e ter estado sempre mais próximo da vitória, o Porto celebrava. É paradoxal que assim seja: afinal, o que fica das duas últimas jornadas do campeonato é que, por duas vezes, o Porto teve oportunidade de assumir a liderança e por duas vezes claudicou. A sete jornadas do fim, o Benfica lidera e o Porto aposta tudo num falhanço do Glorioso.
O campeonato começou agora e os cenários são incertos. Apesar de tudo, temos no histórico recente uma forma de perspetivar o futuro. E aí o Benfica leva vantagem. Não apenas, em absoluto contraste com o Porto, tem vários jogadores que já foram campeões com a camisola encarnada, como a equipa tem uma experiência de sucesso a lidar com a pressão. Na temporada passada, o Benfica liderou com dois pontos de vantagem durante dez jornadas. Deu a volta ao marcador em vários jogos, jogou em inferioridade numérica noutros, marcou nos últimos minutos e, semana a semana, foi construindo o caminho para o tri.

Conhecem aquela velha asserção de que a História se repete? Não é por acaso que acontece.

publicado no Record de 4 de Abril